Quando o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, anuncia que a conclusão do Portal Único de Comércio Exterior — sistema integrado de gestão de importações e exportações conhecido como Siscomex — pode reduzir em R$ 40 bilhões por ano os custos do comércio exterior brasileiro, o dado merece ser lido além do discurso de inauguração. Nossa avaliação é que essa projeção, se confirmada, representa um dos movimentos mais relevantes de redução do chamado Custo Brasil — expressão que designa o conjunto de ineficiências estruturais que encarecem a produção e o comércio no país — nas últimas décadas, com impacto potencial direto sobre a competitividade industrial e a atratividade para investimentos externos.
O primeiro argumento que sustenta essa leitura parte do próprio mecanismo explicado por Alckmin durante a inauguração da nova fábrica da Whirlpool, em Rio Claro. O ministro foi preciso ao ilustrar o custo da ineficiência logística: segundo ele, uma carga parada num navio ou aeroporto por um único dia representa 0,8% do valor total dessa carga; em dez dias de espera, a perda chega a 8%. Para uma economia que movimenta centenas de bilhões de dólares em comércio exterior anualmente, esses percentuais se traduzem em destruição de valor sistêmica e silenciosa. O desembaraço aduaneiro lento não é apenas um inconveniente operacional — é um imposto invisível que recai sobre exportadores, importadores e, em última instância, sobre o consumidor final.
O segundo argumento é estrutural. A iniciativa do Portal Único não surge no vácuo: ela se insere num debate de décadas sobre a necessidade de digitalizar e unificar processos que hoje exigem interação com múltiplos órgãos públicos, sistemas incompatíveis e fluxos de documentação redundantes. Países que avançaram nessa direção — como Singapura, com seu TradeNet, pioneiro já nos anos 1980, ou os membros da União Europeia com seus sistemas aduaneiros integrados — colheram ganhos expressivos de eficiência e viram sua participação no comércio internacional crescer de forma consistente. O Brasil, historicamente penalizado nos rankings de facilidade para fazer negócios justamente por conta de sua burocracia aduaneira, tem aqui uma janela concreta de recuperação de competitividade.
O terceiro argumento diz respeito ao timing industrial. A declaração de Alckmin ocorreu justamente na abertura de uma nova fábrica da Whirlpool — empresa que, segundo o ministro, tem potencial de se tornar um polo exportador para a América Latina. Isso não é coincidência retórica. A expansão de capacidade industrial só faz sentido econômico se os custos de acesso a mercados externos forem competitivos. Setores como o de eletrodomésticos, assim como a aviação comercial — Alckmin citou a Embraer como exemplo de indústria que não sobreviveria sem exportar —, são altamente sensíveis a qualquer redução nas fricções logísticas. Uma queda relevante no tempo e no custo de desembaraço pode ser o fator decisivo entre expandir a produção localmente ou migrar operações para mercados com menor atrito regulatório.
Dito isso, seria imprudente ignorar os riscos e contra-argumentos. O principal deles é o histórico de atrasos em projetos de modernização tecnológica do governo federal. O Siscomex em sua versão original foi lançado nos anos 1990 e passou por reformulações sucessivas sem nunca resolver completamente as gargalos apontados pelo setor privado. A promessa de conclusão até dezembro é um prazo ambicioso, e a experiência com grandes projetos de TI governamental no Brasil sugere cautela. Além disso, parte do Custo Brasil reside em fatores que um portal digital não resolve diretamente — como infraestrutura física de portos, qualidade das rodovias de acesso ou capacidade operacional dos órgãos de fiscalização. A digitalização é condição necessária, mas não suficiente.
Para o tomador de decisão — seja o empresário que planeja expandir sua operação exportadora, seja o investidor avaliando exposição ao setor industrial brasileiro —, avaliamos que o movimento merece atenção concreta. Se o Portal Único for entregue no prazo e com a funcionalidade prometida, os benefícios serão assimétricos: empresas com maior intensidade de comércio exterior, especialmente nos segmentos de bens manufaturados e insumos industriais, tendem a capturar os maiores ganhos. O evento sinaliza também uma disposição política de atacar o Custo Brasil por vias estruturais, o que, combinado a outras reformas em andamento, pode alterar a percepção de risco e de atratividade do ambiente de negócios brasileiro a médio prazo.
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