Você provavelmente ouviu alguém mencionar a expressão ‘sell in May and go away’ — em português, algo como ‘venda em maio e vá embora’. Trata-se de um velho ditado nascido em Wall Street, o principal centro financeiro dos Estados Unidos, que sugere que os mercados de ações tendem a ter desempenho fraco entre maio e outubro, tornando esse período menos favorável para quem investe em renda variável (ou seja, em ativos cujo retorno não é garantido, como as ações). A ideia é simples: quem vende suas posições no começo de maio e só volta ao mercado no segundo semestre evitaria perdas sazonais historicamente recorrentes.
No Brasil, esse ditado ganhou força real em 2025. Segundo reportagem do Money Times, o Ibovespa — índice que reúne as ações mais negociadas da Bolsa de Valores brasileira, a B3, e funciona como o principal termômetro do mercado de ações do país — deve encerrar maio com queda próxima de 6%, tornando o mês o pior dos últimos três anos para o índice. Trata-se de uma queda expressiva para um único mês, e ela não aconteceu por acaso.
O que empurrou o Ibovespa para baixo em maio? Três fatores principais aparecem como explicação: a inflação mais persistente, os ruídos políticos internos e um cenário externo adverso. A inflação persistente significa que os preços continuam subindo de forma resistente, o que pressiona o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo. Juros altos encarecem o crédito e reduzem o apetite dos investidores por ações, já que aplicações mais seguras — como os títulos públicos — passam a oferecer retornos mais atrativos. Já os ruídos políticos se referem a incertezas e declarações que geram instabilidade no ambiente de negócios, afastando investidores. E o cenário externo adverso engloba tensões globais — como disputas comerciais, desaceleração de economias importantes e volatilidade nos mercados internacionais — que reduzem o fluxo de capital estrangeiro para países emergentes como o Brasil.
Por que isso importa para você, mesmo que não invista diretamente em ações? Porque o desempenho do Ibovespa funciona como um sinal amplo da saúde econômica do país. Quando a Bolsa cai de forma consistente, isso indica que os agentes econômicos — empresas, fundos, investidores institucionais — estão menos confiantes no futuro próximo. Esse clima de desconfiança pode se traduzir em menos investimentos produtivos, menor geração de empregos e crédito mais caro para empresas e consumidores. Indiretamente, todos sentem os efeitos.
Se você possui alguma aplicação em fundos de ações, previdência privada com perfil arrojado ou investe diretamente em ações pela Bolsa, uma queda da magnitude registrada em maio representa uma redução real no valor da sua carteira durante o período. Isso não significa necessariamente uma perda definitiva — os mercados oscilam, e quedas mensais podem ser revertidas ao longo do tempo —, mas exige atenção ao seu perfil de investidor e ao prazo que você tem disponível para manter as aplicações.
Vale a pena seguir o ditado e ‘ir embora’ em maio todo ano? A resposta honesta é: nem sempre. O ‘sell in May’ é uma observação estatística baseada em padrões históricos, não uma regra infalível. Em alguns anos, maio e os meses seguintes registram altas significativas, frustrando quem saiu cedo demais. O problema de tentar acertar o ‘timing’ do mercado — ou seja, comprar e vender no momento certo — é que erros nessa estratégia podem custar mais do que simplesmente manter as posições e atravessar os períodos de volatilidade (variação intensa de preços). Investidores de longo prazo, em geral, tendem a se sair melhor ignorando essas oscilações sazonais.
O mês de maio de 2025 serve, portanto, como um lembrete didático de que o mercado de ações é influenciado por múltiplas forças ao mesmo tempo — internas e externas, econômicas e políticas. A combinação de inflação resistente, incertezas no campo político e turbulências globais criou um ambiente particularmente desfavorável para a Bolsa brasileira neste período. O que vem a seguir dependerá de como esses fatores evoluem: se as pressões inflacionárias arrefecerem, se o ambiente político se estabilizar e se o cenário externo melhorar, o Ibovespa terá condições mais favoráveis para se recuperar. Enquanto isso, manter uma carteira diversificada e alinhada ao seu perfil de risco continua sendo a orientação mais sólida para atravessar períodos de turbulência nos mercados.
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