O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, durante comício em Curitiba (PR) neste sábado (12), que a economia brasileira precisa crescer para gerar empregos e que, para isso, o governo deve investir, deixando de lado o que chamou de “babaquice de fazer superávit”. Segundo reportagem do g1, Lula relacionou a busca por superávit primário ao controle fiscal e defendeu que a grande dívida do país seria a taxa de juros, citando um valor anual de R$ 1,3 trilhão. A declaração ocorre em meio à campanha eleitoral, já que o presidente concorre à reeleição no pleito de outubro. A fala reacendeu o debate sobre a política fiscal brasileira, opondo, de um lado, a defesa de maior espaço para investimentos públicos e, de outro, a preocupação com a trajetória das contas públicas.

A declaração de Lula contraria, na prática, a lógica tradicional de gestão fiscal, que prioriza o superávit primário — resultado positivo das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida. O superávit é visto por economistas como uma forma de sinalizar credibilidade e reduzir a necessidade de endividamento. Ao criticar essa meta, o presidente sinaliza que prefere priorizar gastos em investimentos, mesmo que isso signifique conviver com déficits. Contudo, a fala não detalhou de onde viriam os recursos para ampliar o investimento público, nem como seria conciliada a necessidade de estabilidade econômica com a expansão dos gastos. A ausência de detalhamento técnico abre espaço para interpretações distintas sobre o rumo da política fiscal nos próximos anos.

Analistas ouvidos pelo g1 manifestam preocupação com a trajetória das contas públicas. Eles avaliam que os reiterados déficits fiscais dos últimos anos pressionam a taxa de juros e, consequentemente, o endividamento público. Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa emitir títulos para financiar o déficit, o que aumenta a oferta de papéis no mercado e eleva as taxas exigidas pelos investidores. Esse movimento tende a encarecer o custo da dívida e a pressionar a Selic, a taxa básica de juros. Para baixar o juro e conter a dívida, analistas cobram um ajuste fiscal mais forte por parte do governo, com controle de despesas e metas claras de resultado.

O debate ocorre em um momento em que a Selic está em 14% ao ano, patamar considerado elevado. Economistas observam que reduzir a taxa básica por decisão sem embasamento técnico não garante juros menores na economia. Isso porque o juro de longo prazo é definido pelo mercado financeiro e reflete expectativas sobre inflação, atividade econômica e gastos públicos. Se essas expectativas pioram, investidores passam a exigir taxas mais altas para financiar o governo, mantendo os juros elevados. Portanto, uma mudança na Selic sem credibilidade fiscal pode ter efeito contrário ao desejado, elevando ainda mais o custo do crédito e desestimulando investimentos produtivos.

Diante da disparada da dívida pública e do aumento da desconfiança sobre as contas do governo, os investidores passaram a exigir taxas de juros mais altas para financiar o governo. Isso eleva o custo da chamada rolagem da dívida pública, feita por meio da emissão de títulos pelo Tesouro Nacional, e também o endividamento brasileiro, criando um ciclo vicioso. Nesse cenário, quanto maior o déficit, maior a necessidade de emitir títulos, o que pressiona os juros e amplia o estoque da dívida. Esse mecanismo é central no diagnóstico de muitos economistas, que veem na política fiscal expansionista um risco para a estabilidade macroeconômica no médio prazo.

A fala de Lula também precisa ser compreendida no contexto eleitoral. Em ano de eleição, promessas de mais investimentos e críticas ao ajuste fiscal costumam ressoar entre eleitores que priorizam geração de emprego e crescimento econômico. No entanto, o discurso contrasta com as preocupações dos agentes econômicos, que monitoram de perto as contas públicas. A reação dos mercados a declarações sobre política fiscal tende a ser imediata, com reflexos no câmbio, na bolsa e nos juros futuros. Ainda não há dados concretos sobre o impacto específico dessa fala, mas o histórico recente sugere que declarações sobre gastos e superávit costumam mexer com as expectativas.

O conceito de superávit primário é central no debate econômico brasileiro. Ele representa a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida e, idealmente, reduzir o endividamento. Quando o resultado é negativo, o país registra déficit primário, o que aumenta a dívida pública. A discussão sobre a necessidade de superávit ganhou força nos anos 1990 e 2000, quando o Brasil adotou metas fiscais para controlar a inflação e estabilizar a economia. Mais recentemente, o país passou a conviver com déficits recorrentes, o que ampliou a preocupação com a sustentabilidade da dívida. Nesse contexto, a fala de Lula representa uma ruptura com a interpretação dominante entre economistas de mercado.

A relação entre juros, inflação e gastos públicos é complexa e fundamental para entender o atual impasse. Quando o governo gasta mais, a demanda agregada aumenta, o que pode pressionar a inflação. Para conter a alta de preços, o Banco Central tende a elevar a Selic, encarecendo o crédito e freando a economia. Esse ciclo, porém, tem custos sociais, pois reduz o consumo e o investimento. A crítica de Lula à busca por superávit pode ser vista como uma tentativa de quebrar esse ciclo, priorizando o crescimento em detrimento do ajuste fiscal. No entanto, sem uma estratégia clara de financiamento, o risco é que a expansão dos gastos piore as expectativas e mantenha os juros elevados.

O tema das contas públicas deve seguir dominando o debate eleitoral e econômico nas próximas semanas. A trajetória da dívida pública, a necessidade de investimentos e o papel do controle fiscal na determinação dos juros são questões que exigem equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade. O governo defende mais espaço para investir, enquanto analistas pedem ajuste fiscal. Encontrar um meio-termo será desafiador, especialmente em um ambiente de alta desconfiança do mercado. A forma como as promessas de campanha serão traduzidas em políticas concretas, caso Lula seja reeleito, é uma incógnita que pode definir a confiança dos agentes econômicos e o rumo da economia nos próximos anos.