Por que 87% dos brasileiros pensam em trocar seu carro a combustão por um elétrico? A resposta está diretamente ligada ao preço da gasolina, que pesa cada vez mais no orçamento das famílias e reacende o debate sobre alternativas de mobilidade. Uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva revela que a economia com combustível é o principal motor dessa intenção, mas não o único. Sustentabilidade, tecnologia e conforto também entram na equação, em um momento em que o governo federal anuncia medidas para conter a alta dos combustíveis, como a redução a zero dos tributos federais sobre a gasolina por 30 dias. O cenário coloca o Brasil diante de uma encruzilhada energética e econômica.

Nos últimos dois anos, o mercado de veículos elétricos no Brasil deu saltos significativos. Em 2023 e 2024, as vendas de carros 100% elétricos e híbridos cresceram a taxas de dois dígitos, impulsionadas por novos modelos e pela redução gradual de impostos de importação. No entanto, o custo ainda elevado de aquisição — um carro elétrico pode custar de 30% a 50% mais que um similar a combustão — freou a adoção em massa. Agora, com a gasolina batendo recordes sucessivos, a conta do combustível por quilômetro rodado vira um argumento financeiro quase incontestável para muitos motoristas.

Os protagonistas dessa história são múltiplos. De um lado, os consumidores, que veem no veículo elétrico uma forma de fugir da volatilidade dos preços dos derivados de petróleo. Do outro, montadoras como BYD, GWM, Volvo e Renault, que aceleram seus planos de lançamento no país, apostando em modelos mais acessíveis. O governo Lula, por sua vez, tenta equilibrar a pressão inflacionária com medidas paliativas — como a desoneração temporária da gasolina — sem desestimular a transição energética. Enquanto isso, a indústria do etanol, fortemente consolidada no Brasil, observa com cautela o avanço do elétrico puro.

A pesquisa mostra que 78% dos entrevistados que consideram comprar um carro elétrico apontam a economia de combustível como atrativo principal. Esse número ganha ainda mais peso quando se olha o contexto global: o petróleo disparou em 2026 devido aos conflitos no Oriente Médio, elevando os custos de logística e produção. Para 76% dos motoristas, mesmo que o elétrico custe mais na hora da compra, o ganho posterior justifica o investimento. Essa percepção de custo total de propriedade é um divisor de águas na decisão de compra.

A sustentabilidade aparece como o segundo maior motivador, citada por 61% dos entrevistados. A tecnologia mais avançada (56%) e o maior conforto (51%) completam o pódio dos fatores que levam o consumidor a mudar de motorização. Esse perfil sugere que o brasileiro não vê o carro elétrico apenas como um meio de transporte, mas como um símbolo de progresso e consciência ambiental. No entanto, a pesquisa também revela resistência: 24% dos motoristas acham que a economia com combustível não compensa o valor mais alto do veículo.

As ramificações desse movimento são profundas. Quem ganha claramente são as montadoras de elétricos, que podem acelerar a produção e ganhar escala. O setor de energia também se beneficia, com a demanda por eletricidade renovável crescendo em horários de pico. Por outro lado, perdem os postos de gasolina, a cadeia de abastecimento de combustíveis fósseis e, em certa medida, a indústria do etanol, que ainda precisa provar sua competitividade frente ao motor elétrico em termos de custo por quilômetro. O governo, ao zerar tributos sobre a gasolina, ganha tempo, mas arca com um custo estimado em R$ 5,2 bilhões por mês.

É importante lembrar que, hoje, a infraestrutura de recarga no Brasil ainda é incipiente. São menos de 5 mil eletropostos públicos, concentrados no Sudeste, o que limita o uso de elétricos puros em viagens longas. Por isso, muitos consumidores migram para os híbridos — que combinam motor a combustão e elétrico — como uma solução de transição. A pesquisa, contudo, não detalha essa preferência, mas o contexto setorial mostra que os híbridos representam 70% das vendas de eletrificados no país.

O que esperar adiante? Com a gasolina cara e a pressão no orçamento familiar, a tendência é que o interesse por elétricos continue crescendo, especialmente se os preços de aquisição caírem com a nacionalização de componentes e a chegada de fábricas no Brasil. Medidas governamentais de incentivo, como linhas de crédito específicas ou redução do IPI, podem acelerar esse processo. No entanto, a volatilidade do petróleo e a dependência de importação de baterias seguem como riscos. O brasileiro parece disposto a mudar de hábito, mas a conta precisa fechar no bolso — e, por enquanto, a gasolina alta está ajudando a equação a se equilibrar.