O Brasil vive um momento dramático em relação às finanças pessoais de sua população. Em março de 2025, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Trata-se do maior patamar já registrado na série histórica da pesquisa, iniciada em janeiro de 2010.
Os números revelam uma situação de angústia generalizada. Segundo a Peic, 29,6% das famílias tinham dívidas em atraso em março, e 12,3% declararam não ter condições de quitar os compromissos atrasados naquele mês. O peso das dívidas no orçamento doméstico também é alarmante: o pagamento de débitos compromete quase um terço da renda familiar, exatamente 29,6% do total recebido pelas famílias.
Outra pesquisa, conduzida pela Serasa, aponta dados igualmente preocupantes. Em fevereiro, 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, o equivalente a 49,9% da população adulta do país. O valor médio da dívida por pessoa chegava a R$ 6.598,13, uma cifra que representa um peso considerável para famílias de baixa e média renda.
Os principais tipos de dívida que afligem as famílias brasileiras são o cartão de crédito, presente em 84,9% dos casos, seguido pelos crediários do varejo (16%) e os empréstimos pessoais (12,6%). O cartão de crédito, que combina praticidade com juros altíssimos em caso de parcelamento ou atraso, tornou-se a principal armadilha financeira de milhões de brasileiros.
Especialistas apontam três fatores principais para explicar o recorde de endividamento. O primeiro deles é a ampliação da oferta de crédito. Desde a pandemia de Covid-19, o número de brasileiros com acesso a contas bancárias cresceu de forma expressiva, especialmente por meio de fintechs e bancos digitais. Mais acesso ao crédito, no entanto, não veio acompanhado de educação financeira adequada, levando muitos consumidores a assumir compromissos acima de suas possibilidades.
O segundo fator é a taxa de juros. Com a Selic em patamar elevado, o custo do crédito no Brasil permanece entre os mais altos do mundo. Empréstimos pessoais, cheque especial e cartão de crédito rotativo cobram juros que chegam a superar 400% ao ano, tornando as dívidas impagáveis para quem não consegue liquidá-las rapidamente.
O terceiro e mais recente fator é o crescimento explosivo das chamadas bets, plataformas de apostas esportivas e jogos virtuais que se disseminaram pelo país nos últimos anos. Relatos de brasileiros que comprometem parte significativa — ou a totalidade — de sua renda mensal nessas plataformas são cada vez mais frequentes. Em comunidades virtuais e grupos de apoio, é comum encontrar pessoas que afirmam ter o nome negativado em múltiplos bancos por causa das apostas online.
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