O Salão do Automóvel de Pequim 2025 costuma reservar surpresas, mas poucas foram tão impactantes quanto a estreia do Xpeng Aridge. À primeira vista, o veículo parece uma caminhonete robusta e imponente, com visual que remete ao estilo angular da Tesla Cybertruck. Mas é quando a caçamba se abre que o espanto toma conta: de dentro dela surge um carro voador completamente integrado à estrutura do veículo terrestre.

A proposta do Xpeng Aridge é, em essência, reunir dois mundos em um único produto. De um lado, uma van off-road de grandes dimensões — 5,5 metros de comprimento e 2 metros de altura — desenhada para enfrentar terrenos difíceis. De outro, um veículo aéreo compacto capaz de decolar diretamente da caçamba, transformando o conjunto em uma solução de mobilidade integrada terrestre e aérea.

No que diz respeito à parte que circula no solo, o Aridge é movido por um sistema híbrido plug-in sofisticado. Dois motores elétricos são responsáveis pelo movimento das seis rodas, garantindo tração integral em qualquer tipo de superfície. Um motor a combustão complementa o conjunto, mas não para mover as rodas diretamente: sua função é exclusivamente gerar eletricidade e recarregar as baterias durante o trajeto, em um arranjo conhecido como híbrido de autonomia estendida ou range extender.

Essa configuração permite que o veículo funcione predominantemente de forma elétrica, reduzindo emissões no dia a dia, enquanto o motor a combustão entra em cena apenas para prolongar a autonomia em viagens mais longas. Com as baterias completamente carregadas e o tanque abastecido, a Xpeng promete uma autonomia total de até 1.000 quilômetros — número expressivo para qualquer veículo, especialmente considerando que ele também carrega um carro voador a bordo.

Apesar do tamanho e da complexidade do sistema, o Aridge ainda consegue acomodar até quatro passageiros em sua cabine. No evento, porém, os vidros estavam totalmente opacos, impedindo que visitantes pudessem observar o interior da parte terrestre do veículo. A Xpeng optou por manter esse mistério durante a apresentação, concentrando as atenções no veículo aéreo.

E o carro voador merece atenção. Diferentemente de muitos conceitos que circulam sob esse rótulo e que funcionam essencialmente como drones autônomos, o veículo aéreo do Aridge conta com comandos físicos de pilotagem, o que o aproxima mais de um helicóptero ultracompacto ou de um drone tripulado do que de um táxi aéreo sem piloto. Durante o salão, o público pôde se aproximar e até ocupar o assento do veículo voador, conhecendo de perto os controles.

A Xpeng informa, no entanto, que o modelo também dispõe de um modo de voo autônomo, no qual o piloto simplesmente informa o destino e o veículo aéreo assume o controle total da navegação. Essa dualidade — voo manual e voo autônomo — coloca o Aridge em uma posição interessante no mercado emergente de mobilidade aérea urbana e rural, atendendo tanto pilotos experientes quanto iniciantes.

O design do conjunto terrestre segue uma estética industrial e futurista, com chapas em cinza fosco e linhas retas e geométricas. A impressão é de um veículo construído para ambientes extremos, mas com tecnologia de ponta embarcada. A tração nas seis rodas reforça o caráter off-road do Aridge, sinalizando que a Xpeng imagina usos além das cidades — talvez em operações de logística, resgate ou exploração de regiões remotas.

A apresentação do Xpeng Aridge no Salão de Pequim reforça um movimento mais amplo da indústria automobilística chinesa, que deixou de copiar tendências globais e passou a ditá-las. Empresas como Xpeng, BYD e outros fabricantes locais estão investindo pesado em mobilidade elétrica, inteligência artificial e agora também em aviação de baixa altitude, pressionando montadoras ocidentais a acelerarem seus próprios programas de inovação.

Ainda não há informações sobre preço, data de lançamento comercial ou disponibilidade do Xpeng Aridge em mercados fora da China. O que ficou claro no salão de Pequim é que o projeto vai além de um exercício de estilo: trata-se de um veículo funcional, com tecnologia tangível e uma visão clara sobre o futuro da mobilidade multidimensional.

O conceito de integrar um veículo aéreo a uma plataforma terrestre resolve um dos maiores desafios da mobilidade aérea urbana: a infraestrutura de hangares e pontos de pouso. Com o Aridge, o próprio veículo terrestre funciona como base de operações para o módulo voador, eliminando a necessidade de instalações fixas dedicadas. Se essa solução se provar viável em escala comercial, pode representar um passo significativo na democratização da aviação pessoal.

Fonte: G1 Carros – Globo