Os casos de sarna em animais silvestres no interior do estado de São Paulo registraram um crescimento alarmante de 700% nos últimos oito anos. Os dados são da associação Mata Ciliar, com sede em Jundiaí, e acendem um sinal de alerta para especialistas em medicina veterinária e conservação ambiental. O avanço da doença sobre a fauna nativa é visto como consequência direta da expansão urbana sobre áreas de mata e da crescente aproximação entre animais silvestres e o ambiente humano.

Um dos casos mais emblemáticos recentes é o de um lobo-guará resgatado em dezembro do ano passado na cidade de Pedreira, no interior paulista. O animal foi encontrado debilitado, com sinais evidentes da doença, como queda intensa de pelos e dificuldade de locomoção — dois dos principais sintomas da sarna. Após o resgate, ele foi encaminhado à associação, onde passou por cirurgia e tratamento intensivo conduzido por uma equipe multidisciplinar de veterinários.

Segundo o veterinário Lucas Pereira de Jesus, um dos responsáveis pelo atendimento, a aproximação dos animais silvestres das áreas urbanas é um dos principais fatores que favorecem a disseminação da sarna. Isso ocorre porque o contato com animais domésticos e com resíduos humanos aumenta exponencialmente o risco de contágio. O ácaro causador da sarna encontra nas fronteiras entre cidade e mata um ambiente propício para se proliferar entre espécies que normalmente não teriam contato entre si.

Para identificar animais contaminados ainda na natureza, as equipes da Mata Ciliar utilizam armadilhas fotográficas estrategicamente posicionadas em áreas de mata. A tecnologia tem sido fundamental para monitorar a presença de animais doentes antes mesmo que eles precisem ser resgatados em estado crítico. Essa abordagem preventiva permite intervenções mais rápidas e com melhores prognósticos de recuperação.

Após o resgate, todos os animais passam por um período de quarentena rigoroso. Essa etapa é essencial para evitar que a doença se espalhe para outros animais em tratamento na associação. Somente após confirmação de cura e estabilização clínica os animais são transferidos para áreas de adaptação gradual, onde recebem estímulos comportamentais para readquirir instintos naturais e se preparar para o retorno à vida selvagem.

O lobo-guará de Pedreira é considerado um caso de sucesso pelo corpo clínico da Mata Ciliar. O animal se recuperou bem do tratamento e, no momento da reportagem, aguardava a conclusão de exames finais antes de iniciar a última etapa de reabilitação. Os veterinários destacaram que o trabalho em equipe integrado e o uso de tecnologia de monitoramento foram determinantes para o desfecho positivo do caso.