O que acontece quando um fragmento florestal resiste, por décadas, ao avanço da agropecuária e da urbanização no interior de São Paulo? A resposta pode ser encontrada no extremo oeste do estado, onde o Parque Estadual Morro do Diabo, no município de Teodoro Sampaio, guarda o maior remanescente de Mata Atlântica do interior paulista: 33.845 hectares de floresta contínua e preservada. A existência desse santuário ecológico não é apenas uma curiosidade geográfica — ela representa um modelo concreto de como políticas públicas de conservação podem reverter trajetórias de extinção e gerar valor econômico e educacional para regiões inteiras.
A Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do planeta. Originalmente, cobria cerca de 15% do território brasileiro, estendendo-se por quase toda a faixa litorânea e adentrando o interior em diversos estados. Séculos de desmatamento para dar lugar a lavouras, pastagens, cidades e estradas reduziram a cobertura original a fragmentos dispersos, muitos deles pequenos demais para sustentar populações viáveis de grandes mamíferos. No interior paulista, esse processo foi especialmente intenso ao longo do século XX, impulsionado pela expansão do café, da cana-de-açúcar e da pecuária extensiva. É nesse contexto que o Morro do Diabo se destaca: criado em 1941 com a missão explícita de conservar a floresta, o parque antecede em décadas a maioria das políticas ambientais brasileiras modernas, o que explica a maturidade e a integridade do ecossistema que abriga hoje.
O principal ator institucional desta história é o próprio Estado de São Paulo, que mantém a gestão da unidade de conservação. Ériqui Inazaqui, gestor do parque, destaca a importância do bom estado de conservação do bioma para a fauna e a flora locais. A estrutura de gestão envolve também monitores ambientais, como Gabrielle Vilhena, responsáveis por mediar a relação entre visitantes e o ecossistema, garantindo que o fluxo humano não comprometa a integridade da reserva. Do lado da demanda, professores e educadores — como Leonardo Nascimento Soares, docente de Geografia em Presidente Epitácio — reconhecem no parque um laboratório vivo para trabalhar conscientização ambiental com estudantes, ampliando o alcance social da unidade para além das suas fronteiras físicas.
O caso mais emblemático do que a conservação pode produzir é o do mico-leão-preto. O primata foi dado como extinto na década de 1970, período em que a fragmentação florestal e a caça haviam dizimado populações em todo o estado. A redescoberta da espécie no Morro do Diabo representou um marco científico e simbólico para a biologia da conservação no Brasil. Atualmente, o parque abriga a maior população livre do primata na natureza, com uma média de 1,2 mil indivíduos — um número expressivo para uma espécie que chegou à beira do desaparecimento. Onça-pintada, bugio e tamanduá também integram a fauna do parque, indicando que a área suporta uma cadeia ecológica complexa e funcional.
As ramificações da existência do parque se distribuem de forma assimétrica entre diferentes grupos. Os beneficiários mais evidentes são a biodiversidade regional, as comunidades científicas que realizam pesquisas no local, os municípios do entorno que se beneficiam do ecoturismo e os estudantes que têm acesso a experiências de educação ambiental de alta qualidade. O parque atrai mensalmente cerca de 2 mil visitantes, atraídos por atrações como trilhas, rotas de ciclismo, montanhismo e uma torre de observação de 12 metros instalada no ponto mais alto da região. Esse fluxo turístico gera renda local e diversifica a base econômica de uma região historicamente dependente da agropecuária. Por outro lado, a manutenção de grandes áreas protegidas impõe restrições ao uso produtivo da terra no entorno, o que pode gerar tensões com proprietários rurais e pressões sobre as fronteiras da unidade — um dilema comum a praticamente todas as unidades de conservação brasileiras.
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