O bilionário Elon Musk subiu ao banco das testemunhas na terça-feira, 28 de abril de 2026, para depor no julgamento que ele próprio iniciou contra a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT. Diante de um tribunal federal em Oakland, na Califórnia, Musk fez declarações contundentes: disse ser o criador da organização, afirmou ter recrutado seus membros mais importantes e garantiu que jamais pretendeu transformá-la em um negócio lucrativo.

“Eu tive a ideia, o nome, recrutei as pessoas-chave, ensinei tudo o que sei e forneci todo o financiamento inicial”, declarou Musk durante o interrogatório conduzido por seu advogado Steven Molo. A fala sintetiza a tese central da defesa: a de que a OpenAI foi concebida como uma instituição filantrópica e que sua transformação em empresa com fins lucrativos representa uma traição aos valores fundadores do projeto.

Musk completou seu raciocínio com uma crítica mais ampla ao sistema de filantropia americano. “Foi especificamente concebido como uma instituição de caridade que não beneficia nenhuma pessoa individual. Eu poderia ter criado uma empresa com fins lucrativos, mas escolhi não fazer isso”, afirmou. Ele também alertou: “Se permitirmos o saque de uma instituição de caridade, toda a base da filantropia nos Estados Unidos será destruída.”

O processo foi aberto por Musk em 2024 e tem como eixo principal a alegação de que a OpenAI trai sua missão original ao buscar capital de investidores e operar cada vez mais como uma corporação tradicional. A organização recebeu aportes bilionários, incluindo um investimento de US$ 10 bilhões da Microsoft em janeiro de 2023, o que, segundo Musk, desvirtuou completamente os objetivos iniciais da entidade.

A OpenAI, no entanto, rebateu as acusações com argumentos igualmente duros. William Savitt, advogado da empresa, afirmou em sua declaração inicial que Musk queria “as chaves do reino” e só recorreu à justiça depois de fracassar em seus objetivos pessoais dentro da organização. Savitt destacou que, em 2023, o próprio Musk fundou a xAI, sua empresa de inteligência artificial, hoje incorporada à SpaceX, o que contradiz a narrativa de que ele não tinha interesse comercial no setor.

“O que importa para ele é estar no topo”, disse Savitt diante dos jurados. “Estamos aqui porque o Sr. Musk não conseguiu o que queria”, completou o advogado, sugerindo que a ação judicial seria motivada por rivalidade competitiva, não por princípios altruístas.

O caso ilustra uma das disputas mais acaloradas do mundo da tecnologia nos últimos anos. A OpenAI foi fundada em 2015 como uma organização sem fins lucrativos com o objetivo declarado de desenvolver inteligência artificial de forma segura e benéfica para a humanidade. Musk estava entre os cofundadores e principais financiadores, mas se afastou do conselho em 2018, em circunstâncias que permanecem controversas até hoje.

Desde então, a empresa passou por transformações profundas em sua estrutura. Em 2019, criou uma divisão com fins lucrativos para atrair investimentos externos, mantendo a organização sem fins lucrativos como controladora. Para os críticos, esse modelo híbrido representa uma distorção da missão original; para a empresa, é a única forma viável de financiar pesquisa de ponta em IA generativa, que exige bilhões de dólares em infraestrutura computacional.

O julgamento ocorre em um momento de enorme expansão da OpenAI. O ChatGPT, lançado em novembro de 2022, se tornou um dos produtos tecnológicos de crescimento mais rápido da história, ultrapassando 100 milhões de usuários em apenas dois meses. A empresa hoje é avaliada em centenas de bilhões de dólares e negocia uma reestruturação que consolidaria ainda mais seu perfil corporativo.

Do outro lado do espectro, a xAI de Musk lançou o Grok, seu próprio assistente de inteligência artificial, integrado à plataforma X (antigo Twitter). A competição direta entre as duas organizações no mercado de IA generativa torna ainda mais complexo o cenário do julgamento: críticos apontam que Musk teria interesse financeiro em enfraquecer a OpenAI por meio do processo judicial, algo que sua equipe jurídica nega veementemente.

O advogado de Musk, Steven Molo, contra-argumentou que os verdadeiros motivados por interesses financeiros seriam os executivos e investidores da OpenAI, que se beneficiariam diretamente da conversão da entidade para fins lucrativos. Segundo Molo, os réus estariam enriquecendo às custas de uma organização criada para servir ao bem público.

O julgamento promete se estender por semanas, com depoimentos de figuras centrais do mundo da tecnologia e da inteligência artificial. O resultado pode ter impactos significativos não apenas para a OpenAI, mas para todo o setor filantrópico dos Estados Unidos, já que poderá estabelecer precedentes sobre a conversão de entidades sem fins lucrativos em empresas comerciais.

Fonte: G1 – Globo, com informações da agência Reuters.