O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar publicamente o chairman do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, nesta segunda-feira (4 de maio de 2026). Desta vez, o republicano foi além das palavras: publicou em sua rede social, a Truth Social, uma imagem de Powell sendo literalmente jogado dentro de uma lata de lixo, acompanhada da legenda: “‘Tarde demais’ é um DESASTRE para os EUA! Juros altos demais!”.

A publicação ocorreu poucos dias após a última decisão de política monetária conduzida por Powell à frente do Fed, em que o banco central norte-americano optou por manter os juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. A expressão “tarde demais” é uma referência direta ao apelido que Trump criou para Powell, ironizando o que considera uma postura lenta e equivocada do banqueiro central em relação à redução das taxas de juros.

A relação entre Donald Trump e Jerome Powell é marcada por tensões profundas desde o início do segundo mandato republicano, em janeiro de 2025. Ao longo de mais de um ano, o presidente dos EUA não poupou críticas ao Fed e ao seu presidente, pressionando repetidamente pela redução das taxas de juros norte-americanas. Powell, por sua vez, manteve-se firme em sua posição, defendendo a independência da instituição e a tomada de decisões com base exclusivamente em dados econômicos.

As pressões de Trump começaram cedo. Em março de 2025, logo após o Fed optar por manter os juros estáveis, o presidente criticou abertamente a decisão, afirmando que a instituição “estaria muito melhor se cortasse as taxas”. Em abril do mesmo ano, no chamado “Dia da Libertação” — quando Trump anunciou uma nova rodada de tarifas de importação —, ele voltou à carga, argumentando que juros mais baixos ajudariam a economia americana a absorver o impacto das novas medidas comerciais.

O encontro mais emblemático entre os dois ocorreu em maio de 2025, quando Trump recebeu Powell na Casa Branca. Durante a reunião, o presidente disse diretamente ao banqueiro que ele estava cometendo um “erro” ao não reduzir os juros. A resposta de Powell foi firme: ele reafirmou que as decisões de política monetária dependem exclusivamente de dados econômicos e que o Fed atua “conforme determina a lei, isento de influência política”. O comunicado oficial do banco central reforçou essa postura de independência institucional.

Ao longo de junho de 2025, os ataques de Trump se intensificaram nas redes sociais. O presidente passou a usar com mais frequência o apelido “Tarde Demais Powell”, numa estratégia de pressão pública que gerou preocupações entre economistas e investidores sobre a autonomia do banco central mais poderoso do mundo. Qualquer sinalização de interferência política no Fed tem o potencial de abalar a confiança dos mercados financeiros globais.

Em todo o período de pressão, o Fed realizou apenas três cortes de juros, sendo o último deles em dezembro de 2025. O ritmo lento de afrouxamento monetário contrariou as expectativas de Trump, que defende abertamente taxas menores como forma de estimular o crescimento econômico, facilitar o crédito e reduzir os custos de financiamento da dívida pública americana.

A publicação da imagem de Powell na lixeira representa uma escalada retórica significativa, mesmo dentro de um contexto já marcado por hostilidades abertas. Especialistas em política monetária alertam que ataques dessa natureza, partindo do chefe do Executivo, podem comprometer a credibilidade do Fed perante os mercados internacionais. A percepção de independência do banco central é um dos pilares que sustentam a confiança dos investidores na economia dos EUA.

Powell, cujo mandato como chairman do Fed se encerra em maio de 2026, conduz sua última fase à frente da instituição sob forte escrutínio político. Ao longo de sua gestão, enfrentou desafios como a pandemia de Covid-19, o ciclo inflacionário pós-pandemia e agora o embate constante com um presidente que não esconde sua insatisfação com a política de juros.

O episódio reacende o debate sobre os limites da influência presidencial sobre o banco central nos Estados Unidos, um tema sensível que envolve não apenas a política interna americana, mas também os impactos globais das decisões do Fed, que afetam economias emergentes, fluxos de capital e taxas de câmbio ao redor do mundo — incluindo o Brasil.

Fonte: G1 – Globo