O Brasil está exportando mais do que nunca em meses de abril — e os números de 2026 confirmam uma trajetória que mistura competitividade do agronegócio, câmbio favorável e uma demanda global ainda aquecida por commodities. Mas até onde esse fôlego pode chegar e quem, de fato, se beneficia desse desempenho histórico?

Segundo a g1.globo.com, a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 10,53 bilhões em abril de 2026, o melhor resultado para esse mês desde o início da série histórica, em 1989. O dado foi divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) nesta quinta-feira (7 de maio). O saldo positivo representa uma alta expressiva de 37,5% em relação a abril de 2025, quando o superávit havia sido de US$ 7,66 bilhões.

Para entender a magnitude do resultado, é preciso olhar para o que aconteceu nos últimos dois anos. Entre 2024 e 2025, o Brasil passou por um ciclo de fortalecimento das exportações agrícolas, com safras recordes de soja e milho, além de crescimento das vendas de petróleo bruto e produtos siderúrgicos. Ao mesmo tempo, o real mais depreciado frente ao dólar tornou os produtos brasileiros mais competitivos no exterior, incentivando exportadores a aumentar volumes embarcados. Em paralelo, as importações cresceram em ritmo mais lento, em parte pela cautela das empresas domésticas diante de juros elevados e crédito restrito no mercado interno.

Em abril de 2026, as exportações somaram US$ 31,1 bilhões, com crescimento de 14,3% pela média diária em comparação ao mesmo mês do ano anterior. As importações, por sua vez, atingiram US$ 23,6 bilhões, com avanço mais modesto de 6,2% pela média diária. Essa assimetria entre o crescimento das vendas ao exterior e das compras do exterior é justamente o que explica o salto do superávit.

No acumulado dos quatro primeiros meses de 2026, o saldo positivo chegou a US$ 24,78 bilhões — um avanço de 43,5% na comparação com o mesmo período de 2025, quando o resultado havia sido de US$ 17,27 bilhões. As exportações acumuladas no ano somam US$ 116,55 bilhões (alta de 9,2% pela média diária), enquanto as importações chegam a US$ 91,77 bilhões (alta de 2,5% pela média diária).

Os principais atores por trás desse desempenho são os grandes exportadores do agronegócio — produtores de soja, carne bovina, frango, açúcar e celulose —, que se beneficiam tanto do câmbio desvalorizado quanto da demanda firme da China, da Europa e do Oriente Médio. O setor de petróleo e gás, impulsionado pela Petrobras e pelo avanço da produção do pré-sal, também tem papel relevante na composição das vendas externas. Do lado das importações, insumos industriais, equipamentos e combustíveis continuam sendo os principais itens comprados do exterior.

Quem ganha com esse cenário? Em primeiro lugar, o governo federal, que vê nas exportações uma fonte de geração de divisas que ajuda a equilibrar as contas externas do país e reduz pressões sobre o câmbio. Produtores rurais e tradings também saem favorecidos, assim como empresas exportadoras de manufaturados que conseguem competir em preço no mercado internacional. Por outro lado, indústrias que dependem fortemente de insumos importados — como a eletrônica, a farmacêutica e a de bens de capital — seguem pressionadas pelos custos de aquisição no exterior, mesmo com o ritmo de crescimento das importações mais contido.

O consumidor brasileiro, de forma indireta, sente os efeitos da balança comercial superavitária: um real mais estável ou ligeiramente apreciado tende a conter a inflação de produtos importados, como eletrônicos e combustíveis derivados de petróleo. Mas a relação não é direta nem imediata — outros fatores, como a política monetária do Banco Central e a dinâmica fiscal do governo, também interferem no câmbio e nos preços ao consumidor.

Olhando para os próximos meses, o cenário tende a permanecer favorável para as exportações brasileiras, mas com alguns pontos de atenção. A desaceleração da economia chinesa, principal parceira comercial do Brasil, pode reduzir a demanda por commodities agrícolas e minerais. Tensões geopolíticas — como conflitos regionais que afetam rotas marítimas — também representam riscos logísticos. No campo interno, a safra 2025/2026 de grãos, estimada como uma das maiores da história, deve continuar abastecendo o pipeline de exportações ao longo do segundo semestre.

Além disso, o ambiente de tarifas comerciais globais, marcado por disputas entre Estados Unidos e China, pode redirecionar fluxos de comércio e abrir novas janelas para produtos brasileiros em mercados que antes eram abastecidos por competidores asiáticos ou norte-americanos. Esse reposicionamento estratégico já vem sendo discutido pelo governo e pelo setor privado como uma oportunidade de diversificação das vendas externas.

Em suma, o recorde de abril de 2026 não é um evento isolado: é o reflexo de uma conjuntura que combina vantagens estruturais do Brasil — terra, clima, capacidade produtiva — com um ambiente externo que, apesar de incerto, ainda valoriza o que o país tem a oferecer. A pergunta que fica é se o país saberá transformar esse bom momento da balança comercial em investimentos de longo prazo em infraestrutura, tecnologia e diversificação produtiva, ou se os ganhos serão diluídos pelas instabilidades fiscais e políticas que historicamente acompanham os ciclos de bonança exportadora brasileira.

Fonte: g1.globo.com