O anúncio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o fim da chamada taxa das blusinhas não deve ser lido como simples ajuste tributário. Trata-se, na nossa avaliação, de um recuo político significativo que revela a fragilidade do governo em sustentar medidas impopulares — mesmo quando essas medidas tinham fundamento econômico e arrecadatório sólido. A extinção do imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, formalizada por Medida Provisória a ser publicada no Diário Oficial da União, abre um debate mais amplo sobre consistência de política industrial e previsibilidade regulatória no Brasil.

O primeiro argumento que sustenta essa leitura está nos números da arrecadação. Segundo dados da Secretaria da Receita Federal divulgados pelo g1.globo.com, apenas nos quatro primeiros meses de 2026, o governo arrecadou R$ 1,78 bilhão em imposto de importação sobre encomendas internacionais — crescimento de 25% em relação ao mesmo período de 2025, quando o total foi de R$ 1,43 bilhão. Não se trata de uma receita marginal: é um fluxo recorde e crescente. Abrir mão dele sem contrapartida fiscal clara representa um buraco nas contas públicas num momento em que o governo tenta, ao mesmo tempo, demonstrar comprometimento com o arcabouço fiscal.

O segundo argumento é de ordem histórica e política. A taxa das blusinhas foi criada em agosto de 2024 com amplo respaldo do Congresso Nacional e sanção do próprio Lula — que, curiosamente, já havia chamado a medida de ‘irracional’ antes de assiná-la. O imposto respondia a uma demanda legítima da indústria nacional, pressionada pela assimetria tributária entre produtos fabricados no Brasil e mercadorias comercializadas por plataformas digitais estrangeiras, como Shein e Shopee. A tributação foi desenhada para nivelar o campo de competição. Revogá-la sem um mecanismo substitutivo equivalente é, na prática, ressuscitar a vantagem competitiva das plataformas importadoras — em detrimento de fabricantes e varejistas brasileiros que ajustaram estratégias e custos com base na regra vigente.

O terceiro elemento que reforça nossa tese é o contexto político imediato. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, admitiu na semana anterior ao anúncio que a questão estava em debate interno, sinalizando que a decisão foi acelerada por pressão de popularidade e não por revisão técnica da política. Com o ciclo eleitoral de 2026 no horizonte, medidas que reduzem o custo imediato para o consumidor final têm apelo evidente — independentemente de seus efeitos colaterais sobre a competitividade industrial e o equilíbrio fiscal.

É justo, no entanto, registrar o contra-argumento. Críticos da taxa das blusinhas sempre apontaram que o imposto de 20% incide de forma regressiva: quem mais compra em plataformas como Shopee e Shein é a população de menor renda, atraída justamente pelo preço baixo. Nesse sentido, a extinção da cobrança tem um efeito redistributivo imediato — libera poder de compra de famílias que dependem do acesso a produtos baratos. Além disso, o argumento de que a taxa protegia a indústria nacional tem limites: boa parte do que é vendido nessas plataformas simplesmente não tem similar produzido no Brasil em escala e preço competitivos.

Ainda assim, a forma como a reversão foi conduzida é problemática. Uma política aprovada pelo Legislativo, sancionada pelo Executivo e em vigor há menos de dois anos foi desfeita por Medida Provisória, sem debate amplo, sem avaliação pública de impacto e sem compensação fiscal anunciada. Isso deteriora a previsibilidade do ambiente regulatório — um dos fatores que mais afastam investimento produtivo no Brasil.

Para o investidor e o empresário, a lição prática é clara: decisões de alocação baseadas no arcabouço tributário vigente precisam incorporar um prêmio de risco regulatório maior no Brasil. Setores que planejaram expansão de capacidade ou contratação com base na proteção tarifária às compras de baixo valor devem revisar seus cenários. Por outro lado, empresas de logística, tecnologia e plataformas de e-commerce voltadas ao consumidor final podem antecipar uma aceleração no volume de compras internacionais de pequeno valor — o que abre oportunidades em processamento de pagamentos, last-mile e soluções aduaneiras. O recuo do governo pode ser popular nas urnas, mas o custo de longo prazo — em credibilidade de política econômica e coerência industrial — tende a ser pago de forma silenciosa e distribuída por toda a cadeia produtiva nacional.