Se você já passou por um shopping ou rua comercial e viu uma loja com bolos fatiados expostos em vitrines coloridas, provavelmente conhece a Casa de Bolos. Agora, essa rede de franquias recebeu uma proposta de compra de um grupo muito maior: a AB Mauri Brasil, subsidiária da multinacional britânica Associated British Foods (ABF) e responsável por marcas amplamente conhecidas no Brasil, como Fleischmann — o fermento presente em inúmeras cozinhas — e Ovomaltine. A empresa anunciou nesta semana que assinou um acordo para adquirir a totalidade das participações da Casa de Bolos.

Para entender o que está em jogo, vale saber o que é cada parte dessa transação. A Casa de Bolos é uma rede de franquias — modelo de negócio em que empreendedores independentes (franqueados) pagam pelo direito de usar a marca, os produtos e o sistema operacional de uma empresa maior (franqueadora) — fundada em 2010 na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Em pouco mais de uma década, a rede cresceu e hoje conta com mais de 600 lojas distribuídas em mais de 250 cidades brasileiras. Já a AB Mauri Brasil tem mais de 90 anos de história no país e atua com um portfólio amplo voltado principalmente para o segmento de panificação e alimentos.

Por que essa aquisição importa agora? O movimento reflete uma tendência consolidada no setor de alimentos: grandes grupos industriais buscam ampliar sua presença no varejo e no consumo direto, indo além da venda de insumos ou ingredientes para chegar até o consumidor final. Ao incorporar uma rede de franquias com forte capilaridade — ou seja, presença em muitas cidades e pontos de venda — a AB Mauri Brasil potencialmente expande sua atuação de forma significativa, conectando sua expertise em produtos como fermentos e misturas prontas ao negócio de comercialização de bolos já consolidado pela Casa de Bolos.

O que dizem os números? Segundo as informações divulgadas pelas empresas, a Casa de Bolos encerrou o ano de 2025 com faturamento de R$ 720 milhões. Esse valor dá uma dimensão do tamanho da operação que está sendo negociada e explica o interesse de um grupo multinacional pelo ativo. O valor pago pela aquisição, porém, não foi divulgado — as partes decidiram manter o montante em sigilo.

Como fica a operação da Casa de Bolos após a compra? Segundo as empresas, a rede continuará funcionando de maneira independente dentro da AB Mauri Brasil, como uma unidade de negócios autônoma. Isso significa que a marca Casa de Bolos será mantida, assim como o seu posicionamento no mercado, o portfólio de produtos e o modelo de franquias. Na prática, para quem frequenta as lojas ou para quem é franqueado da rede, a mudança imediata deve ser imperceptível — ao menos no curto prazo.

Mas a compra já está confirmada? Ainda não completamente. Antes de ser concluída, a operação precisa passar pelo crivo do Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que é o órgão governamental brasileiro responsável por analisar fusões e aquisições — os chamados atos de concentração — para verificar se eles podem prejudicar a concorrência no mercado. O Cade informou que foi notificado pelas empresas e que o processo será instruído pela sua Superintendência-Geral, que avaliará os possíveis impactos concorrenciais da operação.

Qual é o caminho dentro do Cade e quanto tempo pode levar? Após a análise, a Superintendência-Geral do órgão pode tomar três caminhos: aprovar a operação sem restrições, aprová-la com condições (como a venda de ativos ou restrições de atuação em determinados mercados) ou encaminhar o caso para julgamento pelo Tribunal do Cade. O prazo varia conforme a complexidade do caso. Se a operação seguir pelo procedimento sumário — reservado a casos considerados menos complexos do ponto de vista concorrencial —, o prazo é de até 30 dias. Se tramitar pelo procedimento ordinário, em que a análise é mais aprofundada, o prazo legal é de até 240 dias, podendo ser prorrogado conforme previsto na legislação.

O que essa movimentação revela sobre o mercado? A aquisição da Casa de Bolos pela AB Mauri Brasil é um exemplo do processo de consolidação que ocorre em diversos segmentos da indústria de alimentos no Brasil. Redes de franquias que alcançam escala relevante tornam-se alvos naturais de grupos maiores, que enxergam nelas uma plataforma de distribuição, relacionamento com o consumidor e geração de receita recorrente. Para os franqueados e consumidores, o momento mais relevante ainda está por vir: a conclusão da análise pelo Cade e a eventual integração operacional entre as duas empresas definirão os contornos reais dessa combinação de negócios.