A uma semana do início da Copa do Mundo de 2026, o que deveriam ser notícias de euforia e arquibancadas lotadas é substituído por um cenário que expõe algo mais profundo: a Fifa, entidade máxima do futebol mundial, parece ter perdido o controle sobre a comercialização do próprio produto que organiza. Nossa leitura é direta — o problema dos ingressos não é uma falha logística isolada, mas um sintoma de governança deficiente e de uma relação deteriorada com o torcedor, que pode comprometer a imagem do torneio por anos.
O primeiro argumento que sustenta essa tese vem dos próprios números de disponibilidade. A Fifa prometeu publicamente uma Copa do Mundo com ingressos esgotados. No entanto, conforme reportagem da BBC Sport, há entradas disponíveis para mais da metade dos jogos, incluindo partidas com ingressos sendo negociados bem abaixo do valor original — tanto no site de revenda da própria entidade quanto em mercados secundários. Quando a organização de um evento precisa recorrer a plataformas de revenda para escoar seu próprio estoque, o sinal é inequívoco: a precificação original foi mal calibrada em relação à demanda real. Observamos aqui uma contradição flagrante entre o discurso institucional e a realidade do mercado.
O segundo argumento diz respeito ao precedente recente. Não é a primeira vez que a Fifa enfrenta esse tipo de constrangimento. O Mundial de Clubes realizado no ano passado — também nos Estados Unidos — registrou episódio semelhante, com ingressos vendidos a preços muito reduzidos para evitar imagens de cadeiras vazias. A repetição do padrão indica que não se trata de um acidente, mas de uma disfunção estrutural na estratégia comercial da entidade. Quando uma organização repete o mesmo erro em competições consecutivas, o problema deixa de ser operacional e passa a ser institucional.
O terceiro ponto, talvez o mais grave do ponto de vista jurídico e reputacional, é a abertura de investigação formal. Os procuradores-gerais dos estados de Nova York e Nova Jersey iniciaram oficialmente um processo de apuração sobre as práticas da Fifa em relação aos ingressos. A entidade foi intimada a responder a acusações de inflação artificial de preços e dano aos torcedores. Além disso, segundo a reportagem da BBC Sport, há relatos de compradores que pagaram por ingressos de uma categoria e receberam assentos de valor inferior, mais distantes do campo — uma prática que, em qualquer mercado regulado de consumo, configuraria publicidade enganosa. Quando investigadores do estado-sede do torneio passam a questionar a Fifa formalmente, o risco reputacional se converte em risco jurídico concreto.
É justo considerar o contra-argumento: o mercado de ingressos para grandes eventos esportivos é historicamente volátil, e quedas de preço na reta final não são necessariamente um sinal de desastre. Há torcedores que aguardam deliberadamente essa janela para comprar entradas mais baratas, e é possível que os estádios estejam mais cheios do que as notícias de pré-evento sugerem. Além disso, a Copa de 2026 é a maior da história em número de seleções e jogos, o que naturalmente amplia a oferta de ingressos e pode desequilibrar a relação entre oferta e demanda em partidas específicas — especialmente aquelas que envolvem seleções de menor apelo comercial.
Ainda assim, esse argumento não dissolve o problema central. O sigilo nas políticas de precificação, a ausência de transparência sobre o volume de ingressos em circulação e as falhas relatadas na entrega dos produtos adquiridos são questões que vão além da volatilidade natural do mercado. Para investidores, patrocinadores e empresários do setor de entretenimento e turismo que apostaram na Copa de 2026 como alavanca de negócios, o cenário exige atenção redobrada. Eventos que prometem demanda represada e entregam arquibancadas semivazias produzem efeito multiplicador negativo sobre toda a cadeia — de hotelaria a licenciamento de produtos. Avaliamos que a crise de credibilidade da Fifa em torno dos ingressos é mais custosa a longo prazo do que qualquer desconto praticado agora para lotar os estádios, porque corrói a confiança que sustenta o valor comercial de todas as competições futuras da entidade.
O desfecho da investigação nos estados americanos e o nível real de ocupação das arenas nas primeiras rodadas darão a dimensão exata do problema. O que já podemos afirmar é que a Copa do Mundo de 2026 começa com um questionamento legítimo sobre se a Fifa ainda é capaz de gerir com transparência e competência o maior espetáculo do futebol mundial — e essa dúvida, por si só, já tem peso.
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