A exclusão do Brasil da lista de importadores autorizados pela União Europeia, prevista para entrar em vigor em setembro, não é apenas uma disputa técnica sobre o uso de antimicrobianos — substâncias usadas para tratar e prevenir infecções em animais e que, em alguns casos, também funcionam como promotores de crescimento. É, em nossa leitura, um sinal de alerta sobre a fragilidade estrutural do modelo de certificação sanitária brasileiro diante das exigências crescentes do mercado externo. O episódio revela que exportar para mercados premium exige não apenas cumprir padrões, mas demonstrá-los de forma verificável e independente.
A tese central que avaliamos é a seguinte: o problema não é a qualidade da carne brasileira em si, mas a arquitetura de garantias que sustenta essa qualidade perante compradores internacionais. O próprio presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, deixou isso claro ao afirmar que a Europa não retirou o Brasil da lista por descumprimento de exigências, mas sim pela ausência de garantias oficiais suficientes. O modelo atual, segundo ele, apoia-se fortemente no autocontrole das empresas e na declaração dos próprios produtores. A União Europeia quer que o Ministério da Agricultura certifique presencialmente os criadouros — uma exigência que, tecnicamente, não é descabida em um mercado que preza por rastreabilidade.
O peso econômico desse impasse é concreto e expressivo. Segundo Santin, as exportações brasileiras de carne de aves e carne bovina para a União Europeia somam mais de US$ 1 bilhão por ano, considerando especialmente produtos com valor agregado. Trata-se de um fluxo relevante não apenas em volume, mas em qualidade de receita: vender cortes processados ou premium para a Europa gera margens superiores às de commodities brutas destinadas a outros destinos. Perder esse canal, ainda que parcialmente, representaria um retrocesso comercial difícil de compensar no curto prazo com outros mercados. Observamos que, historicamente, reconquistar posição em mercados regulados por critérios sanitários é um processo lento e custoso — o Brasil viveu episódios semelhantes em outros setores do agronegócio e sabe que o caminho de volta raramente é rápido.
A movimentação diplomática em curso reforça a gravidade do cenário. O Ministério das Relações Exteriores intensificou os contatos com representantes europeus, e o ministro Mauro Vieira chegou a conversar diretamente com o comissário de Comércio do bloco sobre o tema. Paralelamente, o Ministério da Agricultura e o setor privado buscam soluções técnicas para oferecer as visitas presenciais aos criadouros que os europeus exigem. Essa mobilização simultânea nos canais diplomático, regulatório e empresarial indica que o governo compreende a urgência — mas também que a solução não depende apenas de boa vontade política. Ela exige a construção de uma camada adicional de fiscalização pública, algo que demanda tempo, pessoal técnico e recursos.
Um contra-argumento relevante merece consideração: é possível que a pressão europeia tenha componentes protecionistas, funcionando como barreira não tarifária disfarçada de exigência sanitária — um recurso relativamente comum no comércio internacional entre blocos com interesses agrícolas domésticos a proteger. Se esse for o caso, mesmo que o Brasil atenda integralmente às exigências técnicas, novos critérios poderão surgir como obstáculos adicionais. Esse risco não invalida a necessidade de adequação, mas recomenda que o governo trate a questão também como um dossier geopolítico, e não apenas como um problema de protocolo veterinário.
Para investidores, empresários do setor e tomadores de decisão, a leitura que fazemos é direta: a janela até setembro é estreita, e a resolução parcial do impasse — que parece ser o objetivo mais realista do governo neste momento — não elimina a necessidade de uma reforma mais profunda no sistema de certificação sanitária brasileiro. Empresas com exposição relevante ao mercado europeu devem monitorar de perto as negociações e avaliar a diversificação de destinos como medida de gestão de risco. No médio prazo, adequar-se às exigências da UE não é apenas uma obrigação regulatória — é um investimento na credibilidade que sustenta o acesso ao mercado mais exigente e, por isso mesmo, mais valorizado do mundo.
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