Se você já sente o peso das compras no supermercado, prepare-se: a situação pode piorar. Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), emitiu um alerta formal sobre uma nova onda de inflação de alimentos que deve se intensificar até o fim de 2026 e se estender ao longo de 2027. A previsão considera a combinação de fatores geopolíticos, climáticos e econômicos que pressionam toda a cadeia de produção agrícola mundial.
O que é exatamente essa nova onda de inflação de alimentos? Trata-se de um movimento de alta generalizada nos preços do que você consome na mesa, desde grãos básicos como trigo, milho e arroz até frutas, verduras e legumes. Esse processo começa nas chamadas commodities agrícolas — termo que designa produtos primários, como grãos e óleos vegetais, negociados em grandes volumes nos mercados internacionais. Quando o preço dessas commodities sobe, o custo se transmite gradualmente para os produtos nas prateleiras dos supermercados.
Por que esse alerta surge agora? Segundo Torero, em entrevista à Reuters, a estabilidade dos preços de alimentos observada nos últimos meses é temporária. Os mercados ainda refletem boas safras recentes, mas não incorporam plenamente as dificuldades esperadas para o próximo ciclo agrícola. A combinação de três fatores está mudando esse quadro: o conflito entre Irã e Israel, a guerra na Ucrânia — que afeta diretamente regiões exportadoras de grãos — e os efeitos do El Niño, fenômeno climático que altera padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, prejudicando colheitas.
Quais outros fatores estão elevando o custo de produzir alimentos? Além dos conflitos e do clima, há pressões estruturais. A alta do petróleo encarece o transporte e a operação de máquinas agrícolas. A redução da oferta de fertilizantes — substâncias usadas para nutrir o solo e aumentar a produtividade das lavouras — provenientes da região do Golfo Pérsico limita a capacidade dos agricultores de manter altos rendimentos. A escassez de diesel em partes do mundo agrava esse cenário logístico. Todos esses custos, segundo o economista, inevitavelmente chegarão ao consumidor final, ainda que com algum atraso.
Quanto tempo leva para esse aumento chegar ao seu bolso? Torero explica que a transmissão do aumento das commodities para o preço pago pelo consumidor costuma levar de três a seis meses. Ou seja, o que está acontecendo nos mercados agrícolas internacionais hoje será sentido nas gôndolas do supermercado em poucos meses. Na avaliação do economista, os preços das commodities devem começar a subir de forma mais expressiva ainda em 2025, com os alimentos encarecendo de forma mais perceptível até o fim de 2026 e com intensidade ainda maior em 2027.
Por que isso importa tanto? Basta lembrar 2022. Naquele ano, os alimentos tiveram papel central na disparada da inflação global, corroendo o poder de compra das famílias em todo o mundo, especialmente as de menor renda. Países em desenvolvimento, onde uma parcela maior da renda é destinada à alimentação, são os mais vulneráveis. No Brasil, o impacto também se faz sentir diretamente no orçamento doméstico, já que alimentos e bebidas têm peso relevante nos índices de inflação ao consumidor.
O que significa isso para quem faz as compras do mês? Na prática, produtos básicos da dieta cotidiana podem ficar mais caros nos próximos meses. Itens como pão, massas, óleos vegetais e proteínas de origem animal — que dependem de grãos para a alimentação do rebanho — tendem a ser afetados. Frutas, verduras e legumes, mais sensíveis a variações climáticas, também devem sentir o impacto, especialmente se eventos extremos de chuva ou seca se intensificarem nas principais regiões produtoras.
O que você pode fazer diante desse cenário? Do ponto de vista prático, acompanhar as variações de preço, comparar estabelecimentos, planejar as compras e reduzir o desperdício são estratégias que ajudam a minimizar o impacto no orçamento familiar. No nível macroeconômico — ou seja, das decisões de governo e política econômica —, a pressão sobre os alimentos tende a influenciar as decisões de bancos centrais sobre taxas de juros e pode reacender debates sobre segurança alimentar em fóruns internacionais.
O alerta da FAO reforça que a aparente estabilidade dos preços de alimentos nos últimos meses não deve ser interpretada como uma tendência duradoura. A convergência de choques geopolíticos, climáticos e de custos de produção configura um cenário de pressão crescente sobre a cadeia alimentar global. Acompanhar esses movimentos com antecedência é fundamental tanto para famílias planejarem seu orçamento quanto para formuladores de políticas públicas anteciparem respostas adequadas à proteção da renda e da segurança alimentar da população.
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