A elevação da nota de crédito nacional de longo prazo do município do Rio de Janeiro para “AAA” pela Fitch Ratings — o patamar máximo na escala da agência — não é apenas um reconhecimento simbólico. Avaliamos que esse movimento representa uma inflexão relevante na percepção institucional sobre a capacidade de pagamento e a disciplina fiscal de uma das maiores prefeituras do país, com implicações concretas para o custo de captação de recursos, para a atração de investimentos e para o debate sobre gestão fiscal subnacional no Brasil.
A tese central que sustentamos é a seguinte: o upgrade do Rio de Janeiro sinaliza que reformas administrativas e controle de gastos, quando aplicados de forma consistente ao longo de vários anos, produzem resultados mensuráveis mesmo em municípios historicamente associados a desequilíbrios financeiros. O próprio comentário da Fitch, segundo o qual o município apresentou “melhoras consistentes na gestão fiscal”, além de “sólidas margens operacionais e robustos indicadores de liquidez”, indica que a melhora não é pontual — é estrutural o suficiente para justificar a nota mais alta possível dentro da escala nacional.
O primeiro argumento que sustenta essa leitura é a progressão da nota em si. A elevação partiu de “AA+” para “AAA”, ou seja, o município já estava em patamar elevado e conseguiu dar o passo final. Isso sugere que a trajetória de melhora não foi abrupta, mas construída ao longo de sucessivos ciclos de avaliação. Da mesma forma, o Perfil de Crédito Individual (PCI) — indicador que mede a saúde financeira do município sem considerar apoios externos, como transferências federais ou garantias de terceiros — avançou de “BB” para “BB+”. Essa melhora no PCI é particularmente relevante porque demonstra que a solidez do município não depende apenas de suporte externo: há uma melhora intrínseca na qualidade das finanças locais.
O segundo argumento diz respeito à sustentabilidade das receitas. A Fitch classificou a robustez das receitas municipais como “Média”, justificando que o Rio apresenta “dependência relativamente baixa de transferências da União e exposição a fontes de receitas voláteis”. Num contexto federativo em que muitos municípios brasileiros dependem fortemente do Fundo de Participação dos Municípios e de repasses condicionados, uma base de receita com menor dependência federal é um diferencial relevante de resiliência. Observamos ainda que a agência reconheceu que o município tem quitado regularmente suas obrigações ao longo dos anos, o que, segundo a própria Fitch, resulta em indicadores de liquidez sólidos — dado que reforça a consistência operacional da gestão.
O terceiro argumento está na perspectiva de redução gradual do endividamento. A Fitch afirmou acreditar que “a dívida do Rio diminuirá gradualmente ao longo do horizonte do rating”. Num município de grande porte, com folha de pagamento historicamente pressionada e obrigações previdenciárias relevantes, a perspectiva de desalavancagem é um sinal positivo e relativamente raro. A agência também destacou que o Rio está em dia com sua folha de pagamento — detalhe que, dada a história recente de alguns estados e municípios brasileiros com atrasos salariais, não pode ser tratado como trivial.
Seria, contudo, equivocado interpretar o AAA como um atestado de perfeição fiscal. A própria Fitch apontou fragilidades importantes. Tanto a ajustabilidade de receitas quanto a ajustabilidade de despesas foram classificadas como “Fraca”. No lado das receitas, a dependência de um pequeno número de contribuintes e a limitada capacidade de ajustar impostos criam concentração de risco: uma eventual crise em setores ou empresas relevantes para a arrecadação municipal pode impactar desproporcionalmente as contas da prefeitura. No lado das despesas, a baixa capacidade de reduzir gastos em resposta a uma queda de receitas representa uma vulnerabilidade estrutural. Em outras palavras, o modelo fiscal do Rio funciona bem em cenários normais ou favoráveis, mas sua margem de manobra em situações adversas é limitada. Esse é o contra-argumento que qualquer investidor ou analista criterioso deve manter no radar.
Para o tomador de decisão — seja um gestor de portfólio, um empresário avaliando instalações no município ou um administrador público de outra cidade — a mensagem central que extraímos é dupla. Primeiro, do ponto de vista de risco de crédito, o Rio de Janeiro passa a integrar a categoria de menor risco dentro da escala nacional da Fitch, o que tende a reduzir o custo de captação de recursos via mercado de capitais e a ampliar o universo de investidores institucionais aptos a alocar em títulos municipais. Segundo, e talvez mais importante do ponto de vista sistêmico, o caso do Rio reforça que disciplina fiscal aplicada de forma consistente produz resultados reconhecidos mesmo por agências internacionais rigorosas — uma lição de gestão pública que vai muito além dos limites geográficos da cidade maravilhosa. O desafio, agora, é sustentar essa trajetória diante das restrições estruturais que a própria avaliação da Fitch deixa explícitas.
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