O que significa um banco de desenvolvimento registrar o maior lucro e o maior portfólio de ativos de sua história ao mesmo tempo em que expande crédito de forma acelerada? Essa combinação, descrita pelo próprio presidente da instituição como rara, está no centro dos resultados que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) divulgou referentes ao primeiro semestre deste ano. O desempenho lança luz sobre o papel crescente da instituição na economia brasileira e sobre as escolhas de política de crédito que vêm sendo feitas nos últimos anos.

O BNDES é o principal instrumento de crédito de longo prazo do governo federal brasileiro. Diferentemente dos bancos comerciais, que captam depósitos do público para financiar consumo e capital de giro, o BNDES opera com recursos de fontes como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e repasses do Tesouro Nacional para financiar investimentos produtivos — infraestrutura, indústria, agropecuária, inovação e apoio a micro, pequenas e médias empresas. Seu tamanho e suas condições de crédito, geralmente mais favoráveis do que as do mercado privado, fazem dele um ator estratégico em qualquer debate sobre crescimento econômico no país.

Nos últimos anos, o banco passou por um ciclo de recomposição. Entre 2016 e o início desta década, o BNDES enfrentou um período de contração deliberada de sua carteira, resultado de críticas ao modelo de subsídios implícitos e de devoluções antecipadas de recursos ao Tesouro. A carteira de crédito chegou a atingir patamares historicamente baixos em comparação ao seu pico anterior. A retomada do crescimento da carteira que se observa agora representa, portanto, uma inflexão relevante nesse trajetória.

Os números do primeiro semestre deste ano são expressivos por vários ângulos. O lucro recorrente — aquele que exclui ganhos ou perdas extraordinários e, portanto, reflete melhor a capacidade contínua de geração de resultado — atingiu R$ 9,2 bilhões, uma alta de 25% sobre o mesmo período do ano anterior, conforme informado pelo próprio banco. No acumulado de 12 meses até junho, o lucro recorrente chegou a R$ 17,1 bilhões, um recorde histórico para a instituição. Os ativos totais superaram R$ 1,05 trilhão, também em nível recorde, e o patrimônio líquido alcançou R$ 181 bilhões, igualmente o maior da história.

A carteira de crédito, por sua vez, chegou a R$ 684 bilhões, o maior patamar desde 2016, evidenciando que a expansão não é apenas contábil, mas está ancorada em operações efetivamente contratadas. As aprovações de crédito no semestre somaram R$ 110,6 bilhões, com crescimento de 52% em relação ao mesmo período do ano anterior — um salto que indica aceleração significativa da demanda ou da oferta, ou de ambas simultaneamente.

Os setores que mais cresceram em aprovações revelam as prioridades que têm sido sinalizadas pela instituição. O crédito à infraestrutura avançou 91% e somou R$ 46 bilhões, refletindo a aposta em projetos de energia, logística e saneamento. A agropecuária cresceu 46%, chegando a R$ 24,8 bilhões, em um momento em que o agronegócio mantém participação relevante na balança comercial brasileira. Comércio e serviços cresceram 27%, alcançando R$ 17,3 bilhões, e a indústria avançou 24%, com R$ 22,5 bilhões aprovados. O apoio a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) somou R$ 108,2 bilhões no acumulado histórico para o período, com alta de 22%, sendo descrito pelo banco como o maior valor de sua história para um primeiro semestre.

Do ponto de vista dos atores envolvidos, os incentivos são variados. Para o governo federal, um BNDES lucrativo e com carteira em expansão representa um instrumento de política industrial e regional sem custo fiscal imediato para o orçamento — o banco financia seus empréstimos com suas próprias captações e resultados. Para os tomadores de crédito, especialmente empresas de infraestrutura e MPMEs, o acesso a linhas com prazos mais longos e condições diferenciadas representa uma alternativa ao crédito privado, cujo custo tende a ser mais elevado em um ambiente de juros estruturalmente altos como o brasileiro. Para o setor financeiro privado, a expansão do BNDES pode ser lida como concorrência em segmentos nos quais bancos comerciais também atuam, embora o banco de desenvolvimento costume operar em prazos e volumes que o mercado privado não cobre integralmente.

Quem ganha de forma mais direta com esse cenário são os setores com acesso ampliado ao crédito subsidiado ou diferenciado: construtoras e operadoras de infraestrutura, cooperativas agrícolas, pequenas e médias empresas com projetos de expansão. A sociedade em geral pode se beneficiar se os investimentos em infraestrutura se traduzirem em ganhos de produtividade e redução de custos logísticos ao longo do tempo — um efeito que, por sua natureza, leva anos para se materializar plenamente. Eventuais perdas, ou ao menos tensões, podem surgir para concorrentes privados no mercado de crédito corporativo de longo prazo, ou para o Tesouro Nacional caso o banco venha a precisar de aportes no futuro, hipótese que os resultados atuais não sinalizam, mas que faz parte do horizonte de risco de qualquer banco público.

O que esperar adiante é uma questão que passa pela trajetória das taxas de juros, pelo ritmo de aprovação de projetos de infraestrutura e pelo comportamento da inadimplência em uma carteira em forte expansão. Bancos que crescem rapidamente precisam monitorar a qualidade do crédito com atenção redobrada, pois a deterioração costuma aparecer com defasagem em relação ao momento da concessão. O ambiente macroeconômico brasileiro, marcado por juros elevados, impõe desafios tanto à demanda por crédito quanto ao custo de captação, fatores que influenciam diretamente a rentabilidade futura da instituição. O desempenho histórico registrado no primeiro semestre estabelece um patamar elevado de comparação e eleva as expectativas sobre a capacidade do banco de sustentar essa trajetória nos próximos períodos.