Quando cerca de 45 milhões de brasileiros — equivalente a 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais — relatam ter sofrido tentativas de golpe envolvendo seus dados pessoais, não estamos diante de um problema residual de segurança digital. Estamos diante de uma crise estrutural de confiança no ambiente online, com implicações profundas para o ecossistema de negócios, para a adoção de serviços digitais e para a agenda regulatória do país. É essa a leitura que fazemos dos dados inéditos divulgados pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), na terceira edição da pesquisa sobre Privacidade e Proteção de Dados Pessoais.

O número que mais chama atenção não é o dos que identificaram a tentativa e escaparam, mas o dos que não conseguiram: 20% dos usuários pesquisados declararam ter sido vítimas efetivas de crimes envolvendo seus dados. Em outras palavras, um em cada cinco internautas brasileiros foi, na prática, prejudicado. Isso sinaliza que a capacidade de reconhecimento de ameaças ainda é insuficiente — e que a chamada engenharia social, método pelo qual criminosos manipulam psicologicamente as vítimas para obter informações ou transferências, segue como vetor dominante de fraude no país, respondendo por parcela expressiva das fraudes financeiras registradas. A pesquisa, realizada em dezembro de 2025 com dois mil e quinhentos respondentes em entrevistas online de abrangência nacional, representa um avanço metodológico relevante: é a primeira vez que o Cetic.br investigou diretamente se os usuários conseguem identificar tentativas de golpe ou se foram efetivamente vitimizados.

O segundo argumento que sustenta nossa tese sobre a profundidade do problema é de natureza comportamental. Um dos coordenadores da pesquisa, Winston Oyadomari, destacou que o tema impõe constrangimento e abalo emocional às pessoas, tornando a coleta de dados particularmente delicada. Isso implica que os números divulgados provavelmente subestimam a realidade: vítimas que sentem vergonha ou que não reconheceram ter sido lesadas tendem a não reportar. Fenômenos de subnotificação são bem documentados em crimes de natureza financeira e digital ao redor do mundo, especialmente quando envolvem manipulação psicológica. Avaliamos, portanto, que o universo real de afetados pode ser consideravelmente maior do que os 45 milhões identificados. Esse dado, por si só, deveria reorientar prioridades tanto de empresas quanto de formuladores de políticas públicas.

O terceiro elemento relevante é o da pluralidade de canais. O resumo da pesquisa aponta que as tentativas de golpe ocorrem por múltiplos meios de comunicação, o que inclui aplicativos de mensagens, plataformas de redes sociais, e-mails e ligações telefônicas. Essa dispersão de canais torna a resposta individual mais difícil e a resposta institucional mais urgente. Não há um único ponto de controle a ser monitorado: o risco está distribuído por toda a jornada digital do usuário. Para empresas que operam serviços financeiros, varejistas digitais ou plataformas de relacionamento com o consumidor, isso representa uma responsabilidade crescente de verificação de identidade, autenticação robusta e educação ativa do cliente.

O contra-argumento mais razoável a ser considerado é o de que a maior consciência das pessoas sobre tentativas de golpe pode, em parte, refletir uma melhora na percepção e no letramento digital — e não necessariamente um aumento absoluto na incidência de crimes. Se mais usuários sabem reconhecer uma tentativa, a taxa de relato sobe sem que o volume de ataques tenha crescido na mesma proporção. Esse raciocínio é válido e merece ser pesado. No entanto, ele não invalida a conclusão central: mesmo que parte do crescimento nos números seja explicado por maior conscientização, uma taxa de vitimização efetiva de 20% é inaceitavelmente alta para um ecossistema digital que aspira a ser confiável e inclusivo.

Para investidores, empresários e tomadores de decisão, a implicação é direta e urgente. Observamos que o custo de ignorar a segurança de dados deixou de ser apenas regulatório — com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já em plena vigência — e passou a ser reputacional e operacional. Empresas que não investem em proteção robusta de dados e em canais seguros de comunicação com seus clientes estão expostas a um risco crescente de responsabilização e perda de confiança do consumidor. No campo do investimento, setores ligados à cibersegurança, autenticação digital e prevenção a fraudes tendem a se beneficiar de uma demanda estruturalmente crescente. A pesquisa do Cetic.br não é apenas um retrato estatístico: é um alerta sobre o preço que a sociedade brasileira está pagando pela digitalização acelerada sem a contrapartida equivalente em segurança e educação digital.