A relação entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) ganhou novos contornos nesta semana, após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo das principais investigações sobre o caso. Em documentos revelados, a Polícia Federal (PF) apresenta novos elementos que sustentam a linha de investigação segundo a qual grande parte dos créditos comprados pelo BRB do Banco Master estaria ligada a operações irregulares. A reportagem do g1 teve acesso ao laudo pericial que detalha as suspeitas. Os investigadores também apontam que as negociações continuaram mesmo diante de sinais de fraudes e inconsistências nas carteiras adquiridas. O caso, que envolve duas instituições financeiras de grande porte, levanta questões sobre os mecanismos de controle e governança no setor bancário brasileiro.

Na prática, o laudo pericial aponta que o BRB pagava por carteiras de crédito antes mesmo da conclusão das análises técnicas obrigatórias que deveriam avaliar a qualidade desses ativos. Segundo os peritos, a diretoria do banco continuou aprovando novas operações mesmo após alertas internos sobre problemas de documentação, liquidez e inconsistências identificadas nas carteiras negociadas com o Banco Master. Esse padrão de conduta, conforme descrito no relatório, teria se repetido ao longo de diversas aquisições, acumulando riscos que poderiam comprometer a saúde financeira da instituição compradora. As compras foram divididas em valores menores para ficar no limite de aprovação de cada diretoria, o que, segundo a PF, indica uma tentativa de burlar controles internos.

A cronologia dos fatos, detalhada pela investigação, mostra que o BRB já havia recebido alertas sobre riscos no Banco Master antes de intensificar as aquisições. Em outubro de 2023, a agência de classificação de risco Fitch Ratings já havia emitido sinais de atenção sobre o crescimento acelerado e o modelo de negócios do Master, sem apontar necessariamente para insolvência, mas recomendando cautela. Mesmo assim, as transações prosseguiram. As primeiras aquisições começaram em 2024, com a compra de uma carteira de crédito consignado. Em 18 de novembro de 2025, o BRB formalizou a entrada definitiva no capital do Master, conforme registros oficiais. As investigações da PF cobrem justamente o período entre esses marcos.

A Polícia Federal aponta um padrão de ‘gestão fraudulenta’ na relação entre as duas instituições. De acordo com o laudo, documentos, repasses e cobranças estão sob suspeita. A investigação sugere que o BRB comprava carteiras de crédito de baixa qualidade, muitas vezes com indícios de fraude, e que os pagamentos eram feitos de forma antecipada, sem a devida diligência. Esse movimento teria gerado um fluxo financeiro favorável ao Banco Master, que, segundo a PF, utilizava os recursos para cobrir passivos e manter operações questionáveis. Os peritos da Polícia Federal também encontraram evidências de que as compras eram fracionadas para fugir dos limites de aprovação da alta direção, pulverizando o risco de forma a não acionar gatilhos de controle.

A entrada do BRB no capital do Banco Master, em novembro de 2025, foi um marco na relação entre as duas instituições, mas também acendeu alertas no mercado financeiro. À época, a operação foi vista como uma consolidação inesperada, dado o porte do BRB e as incertezas que já rondavam o Master. O laudo da PF, agora tornado público pela decisão do ministro André Mendonça, oferece uma visão mais profunda sobre os bastidores dessa negociação. Segundo a reportagem do g1, os investigadores apontam que as negociações continuaram mesmo diante de sinais de fraudes e inconsistências nas carteiras, o que sugere que a direção do BRB pode ter ignorado deliberadamente os riscos envolvidos.

O caso levanta questões sobre a eficácia dos controles internos no sistema financeiro brasileiro. A investigação da Polícia Federal sugere que o Banco de Brasília, uma instituição controlada pelo Governo do Distrito Federal, falhou em seus processos de análise de crédito e governança. O laudo pericial detalha como as compras fracionadas e os pagamentos antecipados ocorreram sem a devida auditoria técnica, indicando vulnerabilidades que podem ter sido exploradas de forma sistemática. A situação também coloca em xeque a atuação dos órgãos reguladores, que não identificaram as irregularidades a tempo de evitar as perdas potenciais para os cofres públicos.

As consequências financeiras para o BRB ainda estão sendo calculadas, mas as evidências já indicam que o banco pode ter assumido passivos significativos. A Polícia Federal analisa a documentação das operações para determinar o montante exato dos créditos irregulares adquiridos. Segundo fontes da investigação, parte das carteiras compradas pelo BRB apresentava problemas de documentação e liquidez, o que pode resultar em perdas substanciais. O Banco Master, por sua vez, enfrenta uma crise de confiança no mercado, com seus papéis sofrendo desvalorização e a possibilidade de intervenção do Banco Central sendo discutida em círculos financeiros.

No âmbito jurídico, a decisão do ministro André Mendonça de levantar o sigilo das investigações abre caminho para uma eventual ação penal contra os envolvidos. A Polícia Federal já indiciou ex-diretores do BRB e do Banco Master sob suspeita de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O caso deve se arrastar por anos nos tribunais, mas a transparência trazida pelo laudo deve acelerar as medidas de ressarcimento e punição. Especialistas em direito penal econômico apontam que o padrão descrito pela PF configura crime de gestão fraudulenta de instituição financeira, previsto na Lei 7.492/86.

O desdobramento esperado é que a investigação force uma revisão nos procedimentos de fusões e aquisições no setor bancário brasileiro, tanto por parte do Banco Central quanto pelas próprias instituições. A natureza pública do BRB, controlado pelo governo distrital, adiciona uma camada de responsabilidade fiscal ao caso, que pode gerar desgaste político. A expectativa é que os órgãos reguladores endureçam as regras para compra de carteiras de crédito entre instituições financeiras, especialmente quando há alertas prévios sobre a qualidade dos ativos. O episódio serve como um alerta para a necessidade de transparência e controle rigoroso nas transações do mercado financeiro, sob pena de repetir os erros que agora vêm à tona com o caso Master-BRB.