A Companhia Siderúrgica Nacional, conhecida como CSN, anunciou nesta quarta-feira (2) uma mudança relevante no seu comando. Benjamin Steinbruch, que esteve à frente da presidência executiva da empresa por muitos anos, deixa o cargo e passa a ocupar a presidência do Conselho de Administração — o órgão que define as diretrizes estratégicas da companhia, mas sem envolvimento no dia a dia operacional. A partir desta quinta-feira (3), quem assume o posto de presidente executivo, ou seja, o responsável pela gestão cotidiana da empresa, é Fabio Schvartsman.
Schvartsman não é um nome desconhecido do mundo corporativo brasileiro. Formado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), ele também possui pós-graduação na mesma área, além de pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Sua trajetória profissional abrange décadas à frente de algumas das maiores empresas do país, o que o coloca entre os executivos de maior experiência no setor industrial e de recursos naturais do Brasil.
Antes de chegar às grandes mineradoras, Schvartsman construiu uma carreira longa e diversificada. Trabalhou por dez anos na Duratex, empresa do setor de materiais de construção, e passou outros 22 anos no Grupo Ultra, conglomerado com atuação em combustíveis, química e logística, onde ocupou os cargos de sócio-diretor da Ultra S.A. e diretor financeiro da holding Ultrapar. Saiu do grupo em 2007. Em seguida, comandou a Telemar Participações, empresa de telecomunicações, e a San Antonio Internacional, do setor de petróleo e gás. Em 2011, assumiu a presidência da Klabin, uma das maiores produtoras de papel e celulose do país, onde ficou até 2017.
Em maio de 2017, Schvartsman assumiu a presidência executiva da Vale, a maior mineradora do Brasil e uma das maiores do mundo. Ele tinha 63 anos e sucedeu Murilo Ferreira. Sua chegada à Vale foi marcada por um objetivo claro: reorganizar a empresa e orientar suas ações para o Novo Mercado da bolsa de valores — o segmento com as exigências mais rigorosas de governança corporativa (conjunto de práticas que garantem transparência e responsabilidade na gestão). Durante sua gestão, a companhia ampliou os recursos destinados à segurança de barragens e reformulou os mecanismos de controle de riscos em parceria com a consultoria Deloitte. Uma das diretrizes centrais do período foi a chamada política ‘Mariana nunca mais’, criada em referência ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 2015.
Apesar dessas iniciativas, o pior cenário se repetiu. Em janeiro de 2019, a barragem de Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), rompeu, causando uma das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil. Schvartsman deixou a presidência da Vale em meio aos desdobramentos desse desastre. Mais recentemente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que ele voltasse a responder em ações relacionadas ao caso, com processos conduzidos de forma separada — o que significa que sua situação jurídica ligada a Brumadinho ainda não está encerrada.
Você pode se perguntar: por que isso importa para quem acompanha o mercado e a economia? A CSN é uma das maiores empresas do Brasil, com atuação em siderurgia (fabricação de aço), mineração e cimento. A escolha do seu presidente executivo influencia decisões de investimento, relações com trabalhadores, fornecedores e o próprio desempenho das ações da companhia na bolsa. A chegada de um executivo com o histórico de Schvartsman — ao mesmo tempo experiente e cercado de questões jurídicas pendentes — tende a gerar atenção de investidores, órgãos reguladores e da sociedade civil.
Outro ponto relevante para o leitor mais atento é a transição de Steinbruch para o Conselho de Administração. Esse tipo de movimento, em que o fundador ou líder histórico sai da operação do dia a dia mas mantém influência estratégica no conselho, é comum em grandes companhias e pode indicar tanto uma renovação na gestão quanto uma tentativa de preservar a visão de longo prazo já estabelecida. Não é, portanto, uma ruptura completa, mas uma reorganização interna relevante.
O que se espera daqui para frente, com base em padrões conhecidos do setor, é que Schvartsman precise equilibrar dois desafios: demonstrar capacidade de liderança em uma empresa de grande porte e complexidade, e ao mesmo tempo lidar com o peso simbólico e jurídico associado ao seu nome desde Brumadinho. A forma como ele conduzirá essa dupla exigência será observada de perto por investidores, pelo mercado financeiro e pelas comunidades afetadas por desastres ligados à mineração no Brasil. Mudanças na liderança de grandes companhias raramente são neutras — elas carregam sinais sobre a direção que a empresa pretende seguir.
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