O diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, fez duras críticas à política de preços da Petrobras durante um painel realizado nesta segunda-feira, 28. Em sua fala, ele questionou os incentivos para a criação de novas empresas diante da prática da estatal no mercado de combustíveis. A provocação central foi sobre a competitividade do etanol em relação à gasolina, apontando que a Petrobras não segue as regras do mercado internacional.

“Quem que vai montar uma empresa sendo que o seu competidor não segue a regra do mercado internacional?”, indagou Rodrigues, segundo reportagem do Money Times. A declaração ocorreu no contexto do painel intitulado “Regras do jogo: políticas públicas…”, que discutiu os entraves regulatórios e de concorrência no setor de biocombustíveis. O executivo representou a Bioagência, uma agência voltada ao desenvolvimento de negócios e inovação no agronegócio e bioenergia.

O cerne da crítica de Rodrigues está na disparidade entre a formação de preços da gasolina pela Petrobras e os parâmetros do mercado global. Segundo ele, essa distorção compromete diretamente a competitividade do etanol, que é um combustível renovável e de grande relevância para a matriz energética brasileira. O etanol tem enfrentado desafios para competir em preço com a gasolina, especialmente quando a Petrobras mantém valores internos abaixo das cotações internacionais.

A Petrobras, que possui ações negociadas sob os tickers PETR4 e PETR3, adota uma política de preços que, historicamente, alternou entre o alinhamento ao mercado internacional e intervenções para controle inflacionário. Essa prática gera incertezas para investidores e produtores de biocombustíveis, que dependem de uma sinalização clara de preços para planejar seus investimentos. A fala de Rodrigues reflete o descontentamento do setor produtivo com a volatilidade regulatória.

O painel “Regras do jogo: políticas públicas…” serviu de palco para discussões sobre o ambiente regulatório do etanol e as barreiras que impedem seu pleno desenvolvimento. Entre os entraves apontados estão a falta de uma política estável de precificação dos combustíveis fósseis, que muitas vezes são subsidiados indiretamente pela Petrobras, e a necessidade de maior previsibilidade para o setor sucroenergético. A produção de etanol no Brasil é uma das mais eficientes do mundo, mas enfrenta concorrência assimétrica.

A competitividade do etanol é influenciada por diversos fatores, como a safra da cana-de-açúcar, os custos de produção e a tributação incidente sobre os combustíveis. Quando a gasolina é precificada abaixo da paridade internacional, a diferença de preço para o consumidor final reduz o incentivo ao uso do etanol, mesmo este tendo vantagens ambientais e energéticas. Segundo estudos do setor, cada variação de 1% no preço da gasolina impacta significativamente a demanda por etanol hidratado.

A Bioagência, entidade que promove a bioeconomia e a inovação no agronegócio, tem como um de seus focos a defesa de políticas que estimulem a produção de biocombustíveis. As declarações de Tarcilo Rodrigues ecoam a preocupação de que a ausência de regras claras no mercado de combustíveis fósseis desestimula o empreendedorismo e a implantação de novas usinas de etanol, além de dificultar o acesso a crédito e investimentos no setor.

O impacto dessa política de preços da Petrobras não se restringe ao etanol, mas afeta toda a cadeia produtiva de energias renováveis no Brasil. A bioenergia é um pilar importante para a descarbonização da matriz de transportes, e o país possui potencial para se tornar um líder global na produção de biocombustíveis. No entanto, a competitividade do setor depende de um ambiente de negócios estável e de regras que não favoreçam desproporcionalmente os combustíveis fósseis.

Especialistas do setor destacam que a política de preços da Petrobras deve ser coerente com os objetivos de longo prazo do país, que incluem a expansão das energias limpas e a redução das emissões de gases de efeito estufa. A crítica de Rodrigues sinaliza que, sem mudanças estruturais, o Brasil corre o risco de perder oportunidades de investimento e inovação no segmento de biocombustíveis. O debate público sobre o tema tende a se intensificar, especialmente diante dos compromissos climáticos assumidos internacionalmente.

O futuro da competitividade do etanol dependerá de um conjunto de ações, que vão desde a reformulação da política de preços dos combustíveis até a criação de incentivos fiscais e regulatórios específicos para biocombustíveis. A fala do diretor da Bioagência coloca em evidência a necessidade de um alinhamento entre as estratégias da Petrobras e as metas de desenvolvimento sustentável do país, além de cobrar previsibilidade para que novos empreendedores invistam no setor. A expectativa é que o tema avance nos debates do Congresso e nos órgãos reguladores.