Por que a conta de luz volta a pesar no bolso justamente quando o inverno se aproxima? A resposta passa por um mecanismo criado há uma década para tornar transparente algo que sempre existiu no setor elétrico brasileiro: o custo real de gerar energia varia todos os meses, e alguém precisa pagá-lo. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou nesta sexta-feira que a bandeira tarifária permanecerá amarela em junho, mantendo o acréscimo nas contas de todos os consumidores conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN) — a malha que integra a maior parte da geração e distribuição de eletricidade do país.

O custo adicional vigente é de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. Para contextualizar: uma família que consome 300 kWh por mês pagará cerca de R$ 5,65 a mais do que pagaria sob a bandeira verde, que não gera qualquer acréscimo. O valor pode parecer modesto em termos absolutos, mas representa uma sinalização importante sobre o estado do sistema elétrico nacional.

O sistema de bandeiras tarifárias foi criado pela Aneel em 2015 com um objetivo didático: traduzir em cores — verde, amarela, vermelha e vermelha patamar 2 — a situação dos reservatórios hidrelétricos e o custo marginal de geração de energia em cada período. Antes da sua criação, os custos extras de geração eram diluídos nas tarifas de forma opaca, sem que o consumidor soubesse exatamente o que estava pagando e por quê. Com o sistema de bandeiras, esse custo variável ganhou visibilidade e passou a funcionar também como sinal de consumo consciente: quando a bandeira está vermelha, o sistema está sob pressão e é o momento de economizar.

Para entender o momento atual, é preciso olhar para os últimos meses. De janeiro a abril deste ano, a bandeira permaneceu verde, segundo a Aneel, refletindo condições favoráveis de geração — reservatórios bem abastecidos após o período chuvoso e geração hidrelétrica suficiente para atender à demanda sem custos adicionais relevantes. Esse cenário positivo, contudo, é típico do verão brasileiro, quando as chuvas enchem os reservatórios das usinas hidrelétricas. Com a chegada do período seco, a situação começa a se inverter.

Em maio, a bandeira amarela foi acionada pela primeira vez no ano, e agora a Aneel confirma sua manutenção para junho. O órgão regulador atribui a decisão diretamente ao período seco em curso no Brasil, que reduz a afluência de água aos reservatórios e, consequentemente, a capacidade de geração das usinas hidrelétricas. Para compensar esse déficit hídrico, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — responsável por coordenar a operação do SIN mês a mês — aciona as usinas termelétricas, que funcionam a gás natural, óleo combustível ou carvão. Essas fontes têm custo de geração significativamente mais elevado do que a energia hidrelétrica, e é exatamente esse custo extra que a bandeira amarela visa a recuperar.

Os atores envolvidos nesse processo têm posições e incentivos bastante distintos. A Aneel atua como regulador e árbitro: cabe a ela definir as regras do sistema de bandeiras e homologar as cores a cada mês com base nas projeções do ONS. O ONS, por sua vez, tem a função técnica de otimizar o despacho de energia — ou seja, decidir quais usinas geram em cada momento para atender à demanda ao menor custo possível dentro das restrições do sistema. As distribuidoras de energia repassam os custos das bandeiras ao consumidor final, sem margem de lucro sobre esse componente tarifário. Já as geradoras termelétricas, quando acionadas, aumentam sua receita operacional. Do lado do consumidor, seja residencial, comercial ou industrial, a bandeira amarela representa simplesmente uma despesa maior, sem contrapartida direta de melhoria no serviço.

As ramificações dessa decisão se distribuem de forma assimétrica. Consumidores residenciais de baixa renda, especialmente aqueles fora da Tarifa Social de Energia Elétrica, sentem o impacto de forma mais proporcional à renda. Pequenos negócios com margens estreitas, como padarias, restaurantes e lavanderias, também absorvem custos mais altos sem necessariamente conseguir repassá-los aos clientes. A indústria de maior porte, por outro lado, frequentemente negocia energia no mercado livre e pode estar parcialmente isolada das bandeiras tarifárias, dependendo de seus contratos. As empresas geradoras que operam usinas termelétricas contratadas pelo sistema são as que se beneficiam diretamente do acionamento mais frequente nesse período.

Olhando adiante, o comportamento das bandeiras tarifárias nos próximos meses dependerá, fundamentalmente, da evolução das chuvas nas principais bacias hidrográficas que alimentam o parque gerador brasileiro — especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se concentra a maior parte da capacidade hidrelétrica instalada. O período seco tende a se estender pelos meses de inverno, o que historicamente pressiona o sistema e eleva a probabilidade de manutenção ou agravamento das bandeiras. A transição para a bandeira verde só costuma ocorrer com a retomada das chuvas, geralmente a partir do final do ano. O consumidor que quiser mitigar o impacto em sua fatura tem à disposição a estratégia mais simples: reduzir o consumo nos horários de pico e adotar hábitos de eficiência energética, aproveitando o sinal que o próprio sistema de bandeiras foi desenhado para transmitir.