A tese é direta e incômoda: o Brasil chega ao ciclo eleitoral de 2026 carregando um desequilíbrio fiscal estrutural que não pode mais ser tratado como problema de conjuntura. A dívida pública saltou de 66% do Produto Interno Bruto (PIB) — a soma de tudo o que o país produz em um ano — em 2016 para 82% do PIB neste ano, segundo dados mencionados em entrevista do economista José Roberto Afonso ao podcast O Assunto, do G1. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta que, no ritmo atual, o passivo brasileiro pode ultrapassar 100% do PIB em breve. Esse não é um debate técnico restrito a economistas: ele determina o custo do crédito, o espaço para investimentos públicos e, em última análise, a qualidade de vida de toda a população.
O primeiro argumento que sustenta essa leitura está nos próprios números do Orçamento. As contas públicas registraram déficit primário — ou seja, o governo gastou mais do que arrecadou, descontadas as despesas com juros — de R$ 55,3 bilhões apenas em junho. Quando se somam os encargos financeiros da dívida, o rombo acumulado em doze meses chega a R$ 1,3 trilhão. Trata-se de uma magnitude que ilustra como os juros altos, longe de serem apenas um instrumento de política monetária, tornaram-se um multiplicador do próprio endividamento. A cada ano em que a dívida cresce sem contrapartida de superávit primário — resultado positivo das contas antes dos juros —, o custo de carregá-la aumenta, criando um ciclo que se retroalimenta.
O segundo argumento vem da perspectiva histórica trazida pelo próprio José Roberto Afonso, economista que coordenou a equipe responsável pela criação da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000. Afonso mapeou como a composição do Orçamento federal foi se modificando ao longo de 25 anos: gastos obrigatórios — previdência, funcionalismo, transferências constitucionais — foram progressivamente comprimindo o espaço para investimentos e políticas discricionárias. O resultado é um Orçamento com baixa flexibilidade, no qual qualquer choque de receita ou de despesa produz efeitos desproporcionais sobre o déficit. Essa rigidez estrutural é o que torna o ajuste fiscal tão politicamente custoso e, ao mesmo tempo, tão inadiável.
O terceiro argumento diz respeito ao ambiente externo e doméstico que cerca essa discussão. Com o mercado financeiro reduzindo sua projeção de crescimento do PIB para 2026 para menos de 2% ao ano, a equação fiscal fica ainda mais pressionada: crescimento fraco significa arrecadação menor e, portanto, mais dificuldade para gerar o superávit primário necessário para estabilizar a dívida. A arrecadação federal registrou novo recorde para o mês de julho, somando R$ 289 bilhões, o que mostra capacidade de geração de receita, mas esse desempenho não tem sido suficiente para fechar o hiato entre receitas e despesas totais.
O contra-argumento relevante é o do ajuste gradual. Representantes da campanha do presidente Lula, como Dario Durigan, sinalizam que uma trajetória de resultado primário positivo — entradas superiores às saídas antes dos juros — seria o caminho para reduzir a taxa de juros ao longo do tempo, criando um círculo virtuoso. Essa narrativa não é desprovida de lógica econômica: países que conseguiram estabilizar dívidas elevadas frequentemente o fizeram por meio de ajustes graduais combinados com crescimento. O risco, porém, é que o prazo para executar esse ajuste gradual já está se esgotando. Com a dívida próxima dos 82% do PIB e a perspectiva do FMI de que ela pode superar 100%, a janela de oportunidade para uma correção suave estreita-se a cada ano de postergação.
Para o investidor, o empresário e o tomador de decisão, avaliamos que o cenário exige atenção redobrada a dois vetores: o comportamento da taxa de juros de longo prazo, que reflete a percepção do mercado sobre a sustentabilidade fiscal, e a composição das propostas econômicas que emergirem da corrida eleitoral. A ausência de propostas econômicas concretas nos debates — sinalizada pela própria piora das projeções do mercado financeiro para o PIB — é, ela própria, um sinal de alerta. Decisões de investimento de longo prazo, alocação em renda fixa e estratégias de hedge cambial devem levar em conta que o dólar e os juros futuros continuarão sensíveis a qualquer ruído sobre a trajetória fiscal. O equilíbrio das contas públicas não é uma pauta entre outras: é a variável que condiciona todas as demais.
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