O Brasil caminha para mais um marco histórico na produção de soja, mas a conquista vem acompanhada de uma pergunta que não sai da cabeça dos produtores e analistas: até que ponto o clima vai cooperar? A estimativa da consultoria Safras & Mercado, que aponta para uma colheita de 180,1 milhões de toneladas na safra 2026/27, coloca o país novamente na fronteira do que já foi produzido, mas o fenômeno climático El Niño paira sobre esse cenário como uma variável de difícil controle. Compreender esse quadro exige olhar tanto para o que construiu essa trajetória de crescimento quanto para os fatores que podem freá-la.
Nos últimos anos, a sojicultura brasileira viveu um ciclo de expansão consistente. O país consolidou sua posição como maior produtor e exportador mundial da oleaginosa — superando os Estados Unidos —, impulsionado pela incorporação de novas áreas produtivas, sobretudo no Cerrado e nas regiões conhecidas como MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), pela adoção de tecnologias agrícolas de precisão e pela melhora nos rendimentos por hectare. Cada safra recente serviu de base para a seguinte: colheitas sucessivamente positivas permitiram que os produtores melhorassem a relação entre custos e receitas, mesmo em períodos de preços internacionais oscilantes. Esse acúmulo de resultados favoráveis é exatamente o que sustenta, agora, a disposição de ampliar a área plantada mesmo diante de margens de lucro mais apertadas.
Para a safra 2026/27, a Safras & Mercado estima crescimento de 1,2% na área cultivada, chegando a 49,1 milhões de hectares. O plantio deve ter início em meados de setembro, seguindo o calendário agrícola tradicional da região Centro-Sul. O crescimento é considerado modesto, mas consistente com o contexto atual: os produtores enfrentam margens menores do que em ciclos anteriores, o que naturalmente limita o apetite por grandes expansões. Ainda assim, a consultoria avalia que o mercado está mais favorável ao cultivo de soja do que ao de milho na chamada safra de verão da região Centro-Sul — o que funciona como incentivo adicional para que os agricultores direcionem mais área para a oleaginosa em detrimento do cereal.
O analista Rafael Silveira, da Safras & Mercado, resume bem a posição dos produtores: as boas safras anteriores melhoraram a estrutura de custos e mantêm o cultivo economicamente viável, mesmo que os ganhos por hectare estejam menores do que no auge do ciclo de alta de preços. Isso explica por que o setor avança, ainda que de forma cautelosa. Os grandes produtores integrados, com acesso a crédito rural e tecnologia de ponta, estão em posição mais confortável para absorver eventuais pressões. Já os pequenos e médios agricultores, com menor capacidade de hedge — mecanismo financeiro usado para proteger receitas contra oscilações de preço — ficam mais expostos a qualquer adversidade, seja climática ou de mercado.
No lado das ramificações, quem tende a se beneficiar de uma safra recorde são os exportadores, os processadores de soja — que produzem farelo e óleo — e os países importadores, como China, que dependem fortemente do grão brasileiro para alimentar seu rebanho suíno e suas indústrias de processamento. Uma oferta maior tende a pressionar os preços internacionais para baixo, o que é positivo para compradores, mas desafiador para produtores que já operam com margens reduzidas. O agronegócio brasileiro como um todo, por outro lado, se beneficia do volume exportado em termos de entrada de divisas e geração de empregos na cadeia logística e de insumos.
O principal fator de risco identificado pela consultoria é o El Niño — fenômeno oceânico-atmosférico que eleva a temperatura das águas do Pacífico equatorial e altera padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região: enquanto o Sul pode registrar chuvas acima do normal, o Centro-Oeste e parte do Nordeste agrícola tendem a enfrentar períodos de estiagem ou irregularidade hídrica. Justamente nos meses críticos para a formação dos grãos — que coincidem com o desenvolvimento da lavoura entre outubro e fevereiro — uma anomalia climática mais intensa pode comprometer a produtividade de forma significativa. A Safras & Mercado já trabalha com estimativas de rendimento por hectare inferiores às da safra anterior na maior parte das regiões produtoras, o que indica que o risco não é apenas teórico.
A combinação de área levemente maior com produtividade potencialmente menor é o que torna este ciclo peculiar. O recorde projetado de 180,1 milhões de toneladas seria alcançado, portanto, mais pelo volume de hectares do que por ganhos de eficiência agrícola — ao contrário de alguns ciclos anteriores, em que a produtividade foi o principal motor do crescimento. Isso torna a safra mais sensível a qualquer desvio climático: uma queda na produtividade média, caso o El Niño se intensifique, tem o potencial de corroer o resultado final de forma mais expressiva do que em anos em que os rendimentos por hectare estavam em ascensão.
Olhando adiante, o acompanhamento das condições climáticas ao longo do segundo semestre será determinante para calibrar as expectativas. A intensidade e a duração do El Niño, bem como sua distribuição geográfica sobre as principais regiões produtoras do Brasil, definirão se o país confirma o recorde projetado ou se encerra o ciclo abaixo do potencial estimado. O agronegócio brasileiro demonstrou, nas últimas décadas, notável capacidade de adaptação — com adoção de cultivares mais resistentes, ajustes no calendário de plantio e uso de tecnologias de monitoramento climático. Essa resiliência estrutural é um dos elementos que sustentam o otimismo cauteloso da consultoria, mesmo diante de um cenário meteorológico ainda incerto.
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