A decisão do ministro da Fazenda, Dario Durigan, de adiar para a próxima semana o anúncio sobre o fim do subsídio de R$ 0,44 por litro de gasolina não é mero recuo tático — é a expressão mais clara de uma tensão estrutural que o governo Lula carrega desde o início do mandato: como equilibrar o alívio inflacionário para a população com a responsabilidade fiscal que o mercado financeiro cobra? Quando um conflito militar entre Estados Unidos e Irã é capaz de travar uma decisão orçamentária no Brasil, ficam evidentes tanto a fragilidade da estratégia de subsídios quanto a profundidade da dependência brasileira às oscilações do mercado global de petróleo.

A evidência central é direta: segundo declarações do próprio ministro à Rádio Gaúcha, o preço do barril de petróleo voltou ao patamar de US$ 80 após os ataques militares entre Estados Unidos e Irã ocorridos na quarta-feira (8). Esse movimento imediato de alta forçou o adiamento de uma retirada de subvenção que, pelo sinal dado por Durigan, já estava praticamente encaminhada para esta semana. Observamos aqui um padrão recorrente na política energética brasileira: a dificuldade de desvincular decisões domésticas de combustíveis da volatilidade externa. O subsídio, concebido como medida temporária de proteção ao poder de compra, ganha vida própria cada vez que o cenário geopolítico se deteriora — e o Oriente Médio tem dado sobras desse insumo nos últimos anos. A lógica declarada pelo ministro é defensável do ponto de vista social: evitar que a escalada dos preços globais encareça o custo de vida no Brasil e pressione a inflação de bens e serviços. Mas a repetição desse ciclo — tensão externa, adiamento, nova análise — transforma o que deveria ser uma saída controlada em uma dependência difícil de romper.

Um segundo argumento reforça essa leitura. Durigan indicou que a retirada pode ser parcial ou total, a depender da evolução do cenário. Essa abertura interpretativa, embora pragmática, é um sinal de fragilidade de comunicação para o mercado. Investidores e empresários que precisam tomar decisões de precificação — seja no transporte, na logística ou no varejo — não dispõem de uma referência clara sobre o horizonte de normalização do preço da gasolina. A incerteza tem custo econômico real: ela dificulta o planejamento de margens, posterga reajustes de contratos e adiciona uma camada de risco ao cálculo inflacionário. Avaliamos que a ausência de um calendário explícito para a retirada do subsídio é, em si, um fator de instabilidade microeconômica, ainda que a intenção seja estabilizadora no curto prazo.

O único ponto em que o governo demonstra consistência e visão de médio prazo é na política de biocombustíveis. Durigan foi categórico ao afirmar que a turbulência geopolítica não altera — e, segundo ele, até fortalece — os planos de ampliação das misturas de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel, conforme prevê a Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024. A legislação estabelece faixas progressivas de mistura e prevê metas até 2030. O ministro foi além, sinalizando que o governo não descarta propor percentuais ainda maiores. Nesse aspecto, a estratégia faz sentido: quanto maior a participação de combustíveis de origem renovável e doméstica na matriz de transporte, menor a exposição brasileira a choques externos como o que ocorreu esta semana.

O contra-argumento relevante é que a manutenção do subsídio tem custo fiscal não desprezível. Cada litro de gasolina consumido no Brasil carrega um alívio de R$ 0,44 bancado pelo Tesouro — e o Brasil é um dos maiores consumidores de gasolina do mundo. Em um momento em que o arcabouço fiscal é a âncora das expectativas de inflação e câmbio, postergar a retirada de um subsídio regressivo — que beneficia proporcionalmente mais quem possui veículo próprio — pode parecer contraditório com o discurso de responsabilidade fiscal. Há também o risco de que, se o cenário geopolítico permanecer tenso por semanas ou meses, o governo se veja preso em um dilema sem boa saída: manter o subsídio e ampliar o custo fiscal, ou retirá-lo em meio a preços elevados e arcar com o desgaste político de um encarecimento visível ao consumidor.

Para o tomador de decisão — seja o investidor monitorando inflação, o empresário do setor de transportes ou o gestor de política pública —, o cenário recomenda cautela ativa. A janela para a retirada do subsídio existe, mas é estreita e condicionada a fatores fora do controle do governo brasileiro. Avaliamos que a melhor leitura desse episódio não é de crise, mas de vulnerabilidade estrutural: enquanto o Brasil não ampliar de forma consistente a participação de biocombustíveis na matriz energética de transporte, estará sempre sujeito a ter sua política doméstica de preços reféns de conflitos em regiões remotas. O avanço da Lei do Combustível do Futuro é, nesse contexto, a resposta de longo prazo mais robusta disponível — e o governo faz bem em não recuar dela, mesmo quando recua na gasolina.