A recente declaração do presidente Donald Trump sobre renomear a “inteligência artificial” para algo “mais eloquente” expõe um problema mais profundo do que parece à primeira vista. Ao propor uma enquete na rede Truth Social com opções como “Inteligência Superior”, “Inteligência Extrema” ou “Inteligência Suprema”, Trump não apenas revela um desconforto superficial com o termo consolidado há décadas, mas também sinaliza uma abordagem questionável para lidar com uma tecnologia que impacta economia, segurança e trabalho. Avaliamos que esse gesto, aparentemente inofensivo, é na verdade um indicador preocupante da prioridade dada à governança da IA sob sua administração: branding em vez de política pública.

O primeiro argumento contra a seriedade da proposta é a total falta de lastro técnico. Segundo reportagem do g1, Trump não explicou como essa alteração seria implementada, nem se o setor de IA concorda ou foi consultado. Renomear uma área inteira de pesquisa e desenvolvimento, usada globalmente, sem diálogo com cientistas, engenheiros e empresários, denota uma visão que trata a inteligência artificial como uma questão de marketing pessoal. Observamos que, historicamente, a expressão “inteligência artificial” foi cunhada em 1956 na conferência de Dartmouth e carrega 70 anos de referências acadêmicas e comerciais; mudá-la por decreto de enquete nas redes sociais beira o descolamento da realidade tecnológica.

Em segundo lugar, o presidente comparou os riscos da IA às previsões sobre mudanças climáticas, classificando ambos como “farsa”. Essa equiparação é grave porque desautoriza o crescente consenso científico sobre questões de segurança, viés algorítmico e desemprego estrutural gerados pela IA. Ao negar a existência de riscos reais, Trump cria um ambiente de desestímulo a investimentos em pesquisa de controle, ética e regulação. Empresas de tecnologia e investidores de risco precisam considerar que, sem uma moldura regulatória crível, o setor pode mergulhar em uma corrida desenfreada, com consequências que eventualmente recairão sobre os próprios negócios — como escândalos de privacidade ou colapsos sistêmicos.

Outro ponto é o anúncio paralelo de que Trump criará uma “Força de IA” e nomeará um “czar” para supervisionar a regulamentação. Embora a ideia de centralizar a supervisão possa parecer um avanço, a ausência de detalhes (quem será o czar, quais poderes terá, como se relacionará com agências existentes) transforma a promessa em cortina de fumaça. Nossa leitura é que, enquanto a atenção pública fica presa na enquete lúdica, a falta de transparência sobre a futura regulação gera incertezas que paralisam decisões de alocação de capital. Investidores que aguardam sinais claros de Washington para expandir data centers ou contratar especialistas em IA podem adiar movimentos importantes.

Contudo, é preciso considerar um contra-argumento relevante: talvez toda essa movimentação seja apenas ruído político, sem impacto prático na rotina das empresas de tecnologia. Trump é conhecido por declarações bombásticas que não se convertem em ações concretas. A enquete pode ser apenas uma forma de engajar sua base eleitoral, e a “Força de IA” pode ficar no papel, como tantos comitês presidenciais anteriores. Nesse cenário, o mercado continuaria operando com as regras existentes — cada estado americano legislando à sua maneira, empresas seguindo suas próprias diretrizes de segurança. Mas acreditamos que subestimar o poder simbólico do presidente de criar percepções é arriscado.

Na prática, mesmo que a renomeação nunca ocorra, o discurso de Trump já afeta expectativas. Ao associar IA a “conspiração doentia” e “farsa”, ele legitima uma narrativa de descrédito que pode frear investimentos públicos em pesquisa básica, reduzir o interesse de jovens cientistas e, paradoxalmente, acelerar a adoção irresponsável por empresas que enxergam nessa retórica um aval para operar sem freios. A ambiguidade regulatória é um dos maiores riscos para o setor de IA em 2026, e o comportamento errático da Casa Branca amplifica essa incerteza.

Vale lembrar que a inteligência artificial existe há pelo menos 80 anos, com marcos como o Teste de Turing (1950) e avanços recentes em aprendizado profundo. Renomeá-la agora não altera seu funcionamento, seus desafios éticos ou seu potencial de transformação econômica. O que está em jogo, portanto, não é o nome, mas a qualidade da governança. Enquanto a administração Trump brinca com rótulos e ameaça desacreditar o debate sobre riscos, outros países – como China e União Europeia – avançam com políticas de fomento e controle. Para o investidor brasileiro e global, isso significa que vantagens competitivas podem se deslocar para regiões com maior clareza.

Por fim, nossa posição é clara: o episódio deve servir como alerta para empresários e formuladores de política no Brasil. A volatilidade discursiva de um parceiro comercial estratégico como os EUA exige que se construa aqui uma regulação própria, sólida e previsível, que não dependa de humores presidenciais alheios. Empresas que atuam com IA no país precisam fortalecer seus comitês de ética, investir em governança independente e pressionar por marcos legais que protejam o investimento de longo prazo. Ignorar os sinais vindos de Washington – mesmo os aparentemente absurdos – pode custar caro quando a próxima crise de confiança no setor estourar.

Em resumo, a proposta de Trump de renomear inteligência artificial não é apenas anedótica; revela uma postura de desdém pela ciência e pela complexidade do tema. Enquanto a tecnologia avança em ritmo exponencial, a resposta política vacila entre o marketing digital e o negacionismo. Nesse vazio, o mercado deve agir com responsabilidade própria, aguardando o mínimo de racionalidade institucional. Por ora, a recomendação para quem decide onde alocar recursos é redobrar a atenção na conformidade voluntária e na gestão de riscos reputacionais, pois a próxima “enquete” pode vir acompanhada de uma decisão que mude de fato as regras do jogo.