Uma das surpresas da Agrishow 2026, maior feira de tecnologia agrícola do Brasil realizada em Ribeirão Preto (SP), não foi um trator autônomo nem um drone de precisão. Foi uma garrafa de água com gás, sem álcool, com sabor inconfundível de cerveja. O produto, batizado como água saborizada de lúpulo, chamou atenção de visitantes e especialistas e contou uma história improvável: a de um casal do interior paulista que começou a plantar lúpulo no quintal de casa e acabou descobrindo um nicho de mercado por acidente.
Luciana Pereira e Isidro Pontes, moradores de Araraquara (SP), iniciaram o cultivo experimental de lúpulo há quatro anos em sua chácara. A iniciativa contou com o apoio de um tio de Luciana, fitoterapeuta, que ajudou nos primeiros passos da produção. O lúpulo é o ingrediente responsável pelo amargor e pelo aroma característico da cerveja, mas seu cultivo no Brasil é considerado desafiador, uma vez que a planta se desenvolveu originalmente em climas temperados do hemisfério norte e exige condições que fogem ao padrão tropical predominante no país.
Os obstáculos não tardaram a aparecer. O casal chegou perto de desistir diante das dificuldades climáticas e agronômicas. Foi a chegada de um engenheiro agrônomo especialista que reacendeu o ânimo. “A gente estava quase desistindo. Foi quando um engenheiro agrônomo especialista nos ajudou e apoiou, para continuarmos as pesquisas”, conta Isidro. Com o suporte técnico adequado, o projeto ganhou consistência e o casal passou a se aprofundar nas possibilidades comerciais da planta.
Com a plantação em expansão gradual, Luciana e Isidro começaram a experimentar diferentes usos para o lúpulo além da cerveja. O objetivo inicial era criar um sorvete aromatizado com os grãos, apostando em um produto diferenciado para o mercado de alimentos. Todos os dias, Luciana chegava em casa e testava novas formulações. “Eu sabia que o lúpulo tinha em shampoo, perfume e outras coisas. Eu estava mirando em fazer sorvete e todos os dias eu chegava em casa, pegava o meu lúpulo e fazia receitas, até que cheguei em uma formulação perfeita da água saborizada”, relata a produtora.
O achado foi casual, mas o potencial era evidente. A água com gás aromatizada com lúpulo entrega o sabor e o aroma da cerveja sem nenhum teor alcoólico, o que a posiciona em um segmento de bebidas que tem crescido consistentemente no Brasil e no mundo: o das chamadas bebidas funcionais e sem álcool. O mercado global de cervejas e bebidas sem álcool registrou expansão significativa nos últimos anos, impulsionado por consumidores que buscam experiências sensoriais sem os efeitos do álcool.
O produto foi lançado oficialmente durante a Agrishow, o que garantiu ao casal uma vitrine de alcance nacional e internacional. A feira, que reúne fabricantes de máquinas, produtores rurais, investidores e pesquisadores de todo o Brasil, é um ambiente propício para validar novidades e atrair parceiros comerciais. Para um empreendimento que começou no quintal de uma chácara, a exposição representa um salto expressivo de visibilidade.
A estratégia do casal vai além da água saborizada. Luciana e Isidro enxergam no lúpulo cultivado no Brasil uma oportunidade de suprir parte da demanda do setor cervejeiro nacional, que hoje depende fortemente de importações do ingrediente. O Brasil é um dos maiores produtores e consumidores de cerveja do mundo, mas praticamente não cultiva lúpulo em escala comercial. Produtores que consigam adaptar a planta ao clima brasileiro e entregar qualidade constante têm potencial para conquistar tanto as cervejarias artesanais quanto as grandes indústrias.
A experiência do casal de Araraquara ilustra uma tendência crescente no agronegócio brasileiro: a diversificação de culturas e a busca por especialidades que agreguem valor fora das commodities tradicionais. Enquanto soja, milho e cana-de-açúcar dominam o debate setorial, pequenos produtores têm encontrado espaço em nichos pouco explorados, aproveitando know-how técnico, criatividade e canais de comercialização direta ao consumidor final.
A presença na Agrishow também reforça a importância das feiras agrícolas como ambientes de inovação. Ao lado de tratores que operam sozinhos com inteligência artificial e comandos que lembram videogames, uma garrafa de água com sabor de cerveja produzida por um casal de agricultores experimentais ganhou seu espaço — e mostrou que a inovação no campo pode vir de qualquer tamanho de propriedade.
O próximo passo do casal é escalar a produção para atender uma demanda que, segundo eles, já começou a chegar após a repercussão do lançamento. O desafio será manter a qualidade da matéria-prima e garantir volume suficiente para abastecer distribuidores. Se conseguirem, a história do lúpulo plantado no quintal de Araraquara pode se tornar um caso de referência para o agronegócio de especialidades no Brasil.
Fonte: G1 Ribeirão Preto e Franca.
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