O que leva um produtor a abrir mão do modelo convencional de cultivo de café e apostar em um sistema que exige mais paciência, mais conhecimento e um olhar diferente sobre a terra? A resposta, no Espírito Santo, tem nome: café agroecológico. Cada vez mais presente nas propriedades rurais do estado, esse modelo representa não apenas uma escolha ambiental, mas uma estratégia econômica inteligente em um mercado global que valoriza, cada vez mais, a origem e a qualidade da bebida.

O movimento em direção a práticas agrícolas mais sustentáveis vem ganhando força no Brasil nos últimos dois anos, impulsionado por uma combinação de fatores: a pressão crescente de compradores internacionais por rastreabilidade e responsabilidade ambiental, o aumento nos custos dos insumos agrícolas convencionais e uma demanda doméstica em expansão por cafés especiais e orgânicos. O Espírito Santo, segundo maior produtor de café do país, não ficou de fora dessa transição.

Conforme reportagem do g1.globo.com, o produtor Dieimes Bohry cultiva cerca de 700 pés de café conilon em sistema agroflorestal em Vila Valério, no Norte do Espírito Santo. O método consiste em cultivar o café sob a sombra de árvores nativas, em convivência com outras espécies vegetais, o que altera profundamente a dinâmica de maturação dos grãos. Segundo Bohry, o café amadurece mais devagar por estar na sombra, o que proporciona maior conforto térmico à planta e permite um acúmulo superior de açúcar no grão — elemento diretamente relacionado ao sabor mais complexo e adocicado da bebida.

O sistema agroflorestal não é novidade no mundo agrícola, mas sua adoção em larga escala no cultivo de café é relativamente recente no contexto brasileiro. Durante décadas, o modelo dominante privilegiou o plantio em pleno sol, com alta densidade de mudas, uso intensivo de fertilizantes químicos e agrotóxicos, voltado à maximização da produção por hectare. Essa abordagem, embora eficaz em termos de volume, gerou custos ambientais significativos, como a degradação do solo, a perda de biodiversidade e a maior vulnerabilidade das lavouras às variações climáticas.

A virada começou a ganhar contornos mais definidos entre 2023 e 2024, quando o setor cafeeiro brasileiro passou a enfrentar de forma mais aguda os efeitos das mudanças climáticas — secas prolongadas, geadas fora de época e chuvas irregulares. Nesse cenário, os sistemas agroflorestais passaram a ser vistos não apenas como alternativa sustentável, mas como uma espécie de seguro climático para os produtores. A sombra das árvores regula a temperatura do solo e das plantas, reduz a evapotranspiração e protege as lavouras de eventos extremos.

Os atores envolvidos nessa transição são diversos e têm incentivos distintos. Os produtores que migram para o modelo agroecológico buscam, ao mesmo tempo, reduzir custos com insumos, acessar mercados de maior valor agregado e garantir a sustentabilidade de longo prazo de suas propriedades. O solo adubado com esterco de animais e com a matéria orgânica proveniente da poda das próprias árvores, como descreve Bohry, reduz a dependência de fertilizantes industriais e enriquece progressivamente a terra — um ciclo virtuoso que se aprimora com o tempo.

Do lado das torrefadoras e exportadoras, o interesse em cafés produzidos de forma sustentável reflete uma demanda crescente de compradores europeus e norte-americanos dispostos a pagar prêmios por grãos com certificação orgânica, agroecológica ou de comercio justo. O mercado de cafés especiais, que valoriza atributos como origem, método de processamento e perfil sensorial, é justamente aquele em que o café agroflorestal tende a se destacar — pois a maturação mais lenta sob sombra produz grãos com maior concentração de compostos aromáticos e açúcares.

O calendário produtivo do sistema agroflorestal capixaba segue uma lógica bem definida. Entre dezembro e abril, período mais quente e chuvoso, as copas das árvores funcionam como um guarda-sol natural para os cafezais. Entre maio e agosto, com temperaturas mais amenas, acontece a colheita, momento em que as árvores passam por poda controlada — e o material resultante é reaproveitado como adubo orgânico. Essa circularidade é um dos traços mais marcantes do modelo agroecológico e um dos pontos que mais chama a atenção de técnicos e pesquisadores agropecuários.

Quem ganha com essa transformação? Certamente os produtores que conseguem acessar os mercados premium, pois o café agroecológico agrega valor ao produto final e permite margens maiores do que as obtidas no mercado de commodities. A biodiversidade local também sai ganhando, com a recomposição de espécies nativas e a criação de corredores ecológicos dentro das propriedades. O consumidor final, por sua vez, tem acesso a um produto com sabor mais rico e produzido de forma ambientalmente responsável.

Por outro lado, a transição para o modelo agroflorestal não é simples nem rápida. Pequenos produtores sem acesso a assistência técnica qualificada podem enfrentar dificuldades na adoção das práticas corretas, no manejo das árvores e na comercialização diferenciada dos grãos. Há também um período de adaptação produtiva, durante o qual os volumes colhidos podem ser menores, exigindo fôlego financeiro do produtor.

O que esperar daqui para frente? A tendência é que o café agroecológico continue avançando no Espírito Santo e em outros estados produtores, especialmente à medida que aumentam os incentivos governamentais para a transição agroecológica e que as exigências de sustentabilidade nos mercados importadores se tornam mais rígidas. O estado capixaba, com sua tradição cafeeira secular e sua diversidade de microclimas, tem condições favoráveis para se tornar uma referência nacional nesse segmento. O grão cultivado à sombra da Mata Atlântica pode, em breve, ser a melhor resposta do produtor brasileiro a um mercado que pede mais do que volume — pede história, sabor e responsabilidade.