O que está acontecendo exatamente? A União Europeia (UE) publicou, nesta terça-feira (12 de maio), uma atualização da lista de países autorizados a exportar carnes e produtos de origem animal para o bloco europeu. O Brasil foi excluído dessa lista. Isso significa que, se nada mudar até 3 de setembro de 2025 — data em que a nova regra entra em vigor —, o país poderá ser impedido de vender carnes aos 27 países membros da União Europeia.
Por que o Brasil foi excluído? O motivo está relacionado ao uso de antimicrobianos na pecuária. Antimicrobianos são substâncias usadas para tratar e prevenir infecções em animais, como bactérias e fungos. Alguns desses medicamentos também funcionam como promotores de crescimento, ou seja, fazem os animais engordarem mais rápido. A UE proíbe esse tipo de uso e exige que os países parceiros comprovem que seguem regras semelhantes. Segundo a agência France Presse, o Brasil foi retirado da lista por não fornecer as garantias exigidas pelo bloco sobre a não utilização dessas substâncias na criação de animais.
O que diz a União Europeia sobre isso? A porta-voz da Comissão Europeia para a Saúde, Eva Hrncirova, confirmou em entrevista à agência Lusa que o Brasil não está na lista e poderá deixar de exportar para a UE mercadorias como carnes bovina e de frango, além de outros produtos de origem animal, caso o impasse não seja resolvido antes do prazo estabelecido.
O que significa isso em números? Os valores são expressivos. Segundo dados do Agrostat, sistema oficial do Ministério da Agricultura, reportados pelo g1.globo.com, a União Europeia foi o segundo maior mercado para as carnes brasileiras em 2025, atrás apenas da China. No ano passado, o bloco comprou 368,1 mil toneladas de produtos, em negócios que somaram US$ 1,8 bilhão.
Olhando por tipo de carne, a bovina é a mais relevante em valor: o Brasil exportou 128 mil toneladas para a Europa e arrecadou US$ 1,048 bilhão. A UE é o terceiro maior destino da carne bovina brasileira, superada apenas por China e Estados Unidos. Já as exportações de frango para o bloco somaram US$ 762 milhões e 230 mil toneladas em 2025. Outros produtos também seriam afetados, como o mel, que registrou US$ 6 milhões em vendas ao mercado europeu.
Quem seria mais impactado dentro do Brasil? O setor mais diretamente atingido seria o de carne bovina, seguido pelo de frango. Grandes frigoríficos que dependem do mercado europeu como destino premium — onde o preço pago pelos cortes costuma ser mais alto do que em outros mercados — sentiriam o impacto de forma mais imediata. Estados com forte vocação pecuária exportadora, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás, também estariam na linha de frente dos prejuízos.
Por que esse mercado é tão importante para o Brasil? A União Europeia não é apenas um grande comprador em volume: ela paga bem. Os europeus consomem cortes de maior valor agregado, o que eleva a receita gerada por tonelada exportada. Perder esse mercado não afetaria só o volume de vendas, mas também a qualidade da receita cambial gerada pelo agronegócio brasileiro. Além disso, manter o acesso à UE funciona como um selo de qualidade sanitária que abre portas em outros mercados exigentes ao redor do mundo.
O que pode acontecer agora? O Brasil tem até 3 de setembro de 2025 para apresentar à União Europeia as garantias sanitárias exigidas e tentar reverter a exclusão da lista. O governo brasileiro e as entidades do setor, como a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), deverão se mobilizar para negociar com Bruxelas e demonstrar que o país cumpre — ou está disposto a cumprir — os critérios estabelecidos pelo bloco. O prazo é curto, mas não impossível: outros países já passaram por situações semelhantes e conseguiram reinclusão mediante apresentação de documentação e ajustes regulatórios.
Vale lembrar que esse episódio ocorre em um momento delicado para as relações comerciais entre o Brasil e a Europa, com o acordo Mercosul-UE ainda em processo de ratificação pelos países membros do bloco. Uma eventual restrição às exportações de carne reforçaria a percepção de que barreiras não tarifárias — como exigências sanitárias e ambientais — seguem sendo um obstáculo relevante para o comércio bilateral, independentemente de acordos formais. O desfecho das negociações nas próximas semanas será decisivo para o setor e para a imagem do agronegócio brasileiro no mercado internacional.
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