O que está em jogo quando a União Europeia retira o Brasil de uma lista sanitária pode parecer uma questão burocrática — mas, na prática, representa uma ameaça concreta a um dos pilares mais sólidos do agronegócio brasileiro. A decisão europeia de excluir o Brasil da relação de países autorizados a exportar carne para o bloco a partir de setembro de 2025 reacendeu um debate que vai muito além das normas veterinárias: trata-se de soberania comercial, competitividade global e da capacidade do Brasil de se adaptar às crescentes exigências regulatórias dos mercados mais exigentes do mundo.

Para entender o que aconteceu, é preciso voltar ao contexto regulatório europeu. Nos últimos anos, a UE intensificou sua política de combate à resistência antimicrobiana — um problema de saúde pública global causado pelo uso excessivo de antibióticos e substâncias similares em humanos e animais. Em 2022, o bloco passou a exigir que países exportadores de carne demonstrassem, por meio de dados concretos, que controlam o uso dessas substâncias na pecuária. A cada ciclo de revisão, a UE atualiza uma lista com os países considerados em conformidade com essas regras.

Conforme apurado pelo g1.globo.com, na terça-feira (12 de maio), a União Europeia atualizou essa lista e excluiu o Brasil, sob o argumento de que o país não forneceu garantias suficientes sobre a não utilização de antimicrobianos na criação de animais. O prazo para que a exclusão passe a valer é 3 de setembro de 2025. Outros membros do Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — permaneceram na lista e seguem autorizados a exportar.

Na edição de 2024 da mesma lista, o Brasil figurava como autorizado a exportar carne bovina, carne de frango, carne de cavalo, tripas, peixe e mel. A retirada representa, portanto, não apenas uma perda comercial pontual, mas um sinal de alerta sobre a governança sanitária brasileira aos olhos dos europeus — e, por extensão, de outros parceiros que observam de perto como o Brasil lida com seus compromissos internacionais.

Os atores envolvidos nessa disputa têm incentivos muito distintos. Do lado europeu, a Comissão Europeia e a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) atuam sob pressão de consumidores e legisladores que querem maior rastreabilidade e controle sobre o que entra no mercado do bloco. Para Bruxelas, a lista não é uma punição, mas a aplicação de um critério técnico. Do lado brasileiro, o Ministério da Agricultura representa produtores rurais, frigoríficos e exportadores que dependem do mercado europeu como destino de valor agregado — e que temem o efeito cascata de uma exclusão.

O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, agiu rapidamente. Em reunião realizada em Bruxelas, o embaixador brasileiro junto à UE, Pedro Miguel da Costa e Silva, se encontrou com representantes do órgão sanitário europeu. O resultado foi um acordo de procedimento: a UE detalhará quais exigências, na visão do bloco, ainda não são cumpridas pelo Brasil. Em até duas semanas, o Brasil deverá responder com as medidas em curso e com garantias de que as novas regras serão atendidas antes do prazo de setembro.

Outro ponto importante acordado na reunião é que a UE tratará cada produto de forma separada — carne bovina, frango, ovos e mel terão análises individualizadas. Para o governo brasileiro, isso é positivo, pois permite avanços graduais e evita que um problema em um segmento contamine os demais. A separação por produto pode, na prática, salvar parte das exportações mesmo que o impasse sobre outros itens persista.

O Brasil também aproveitou o encontro para enviar um recado político. Luis Rua destacou que o país manifestou descontentamento com a forma como a decisão foi comunicada — ou melhor, como não foi. “O Brasil colocou que bons parceiros devem ser tratados como bons parceiros. E isso envolve comunicação, não ser pego de surpresa”, disse o secretário. A crítica aponta para uma falha de diálogo diplomático que pode ter consequências além dessa negociação específica.

Quem perde no curto prazo são os exportadores brasileiros de proteína animal que têm a Europa como destino. O mercado europeu paga preços premium por cortes de carne e produtos processados, e uma interrupção das exportações — mesmo temporária — representa prejuízo financeiro direto e dano à imagem do produto brasileiro no exterior. Frigoríficos de grande porte, que já planejaram volumes e logística para o segundo semestre, são os mais expostos.

Por outro lado, concorrentes diretos do Brasil — especialmente Argentina e Uruguai, que permaneceram na lista — podem ganhar fatia de mercado na Europa enquanto o impasse perdurar. Para esses países, a exclusão brasileira é uma janela de oportunidade comercial que dificilmente será desperdiçada.

No médio prazo, o episódio pode funcionar como catalisador para que o Brasil acelere a implementação de sistemas de rastreabilidade e controle de uso de antimicrobianos na pecuária — algo que setores do agronegócio resistem por questões de custo e adaptação operacional. A pressão regulatória europeia, nesse sentido, age como uma força externa que empurra reformas internas necessárias.

O que se espera para as próximas semanas é uma intensa rodada de negociações técnicas e diplomáticas. O prazo de setembro é curto, mas não impossível de ser cumprido se houver disposição política dos dois lados. O Brasil tem histórico de reverter situações semelhantes quando mobiliza sua diplomacia comercial de forma coordenada. O desafio agora é demonstrar, com dados e ações concretas, que as garantias sanitárias exigidas pela Europa não são apenas promessas — e que o país está disposto a jogar pelas regras de um mercado que exige cada vez mais transparência e responsabilidade na cadeia produtiva.