Por que os mapas que usamos no cotidiano fazem a Groenlândia parecer maior do que a América do Sul, quando a realidade geográfica é precisamente o contrário? Essa pergunta, que poderia soar como curiosidade escolar, acaba de ganhar dimensão diplomática de primeira grandeza: a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, na última sexta-feira, a adoção da projeção Equal Earth como representação cartográfica de referência, com 164 países votando a favor da mudança. O único voto contrário foi o dos Estados Unidos, e apenas seis abstenções foram registradas. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) escolheu o Dia da Independência, 7 de setembro, para disponibilizar em sua loja virtual os mapas-múndi lançados entre 2024 e 2026, cuja versão mais recente está alinhada exatamente à projeção recém-referendada pela ONU.
Para entender a magnitude do evento, é preciso recuar alguns séculos. O mapa que dominou a representação do mundo desde o século 16 foi criado pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator com uma finalidade prática e específica: auxiliar a navegação marítima. Nesse modelo, as linhas de longitude e latitude são representadas como retas paralelas, o que distorce progressivamente as áreas à medida que se afasta do equador. O resultado é que regiões localizadas em latitudes mais altas, como a América do Norte e a Groenlândia, aparecem ampliadas de forma desproporcional, enquanto o continente africano e a América do Sul surgem diminuídos em relação às suas dimensões reais. Uma distorção técnica nascida para servir navegadores europeus dos séculos 16 e 17 acabou moldando a percepção coletiva global sobre o tamanho e, por extensão, sobre a importância relativa das diferentes regiões do planeta.
A reivindicação por mapas mais fiéis às proporções reais não é nova, mas foi nos últimos anos que ela ganhou tração institucional suficiente para chegar ao plenário da ONU. O esforço que culminou na votação recente foi liderado pela União Africana, o que tem coerência histórica e política evidente: o continente africano é um dos mais prejudicados pela projeção de Mercator, aparecendo nas representações tradicionais como uma massa continental muito menor do que é de fato. A América do Sul ocupa posição semelhante nessa hierarquia distorcida. Ao assumir a dianteira do processo, a União Africana posicionou a discussão cartográfica dentro de um debate mais amplo sobre representação, colonialismo e equidade na produção do conhecimento geográfico.
A projeção Equal Earth, que agora recebe o aval político da ONU, foi desenvolvida com o objetivo de preservar as proporções de área de cada região do planeta com maior fidelidade. Diferentemente da projeção de Mercator, ela prioriza a comparabilidade entre continentes e países em detrimento da precisão angular exigida para a navegação. O IBGE adotou representações cartográficas nesse espírito antes mesmo da votação onusiana, o que coloca o instituto brasileiro em posição de destaque técnico nesse movimento global. Maria do Carmo Bueno, Diretora de Geociências do IBGE, argumenta, segundo a reportagem da Agência Brasil, que a adoção da Equal Earth pela ONU reforça a posição do instituto de acompanhar inovações cartográficas e de adotar representações que dialoguem com demandas sociais por mais equilíbrio e justiça na forma de mapear o planeta.
Do ponto de vista dos atores envolvidos, os incentivos são bastante distintos. Para países do Sul Global — especialmente África e América do Sul —, a mudança tem valor tanto técnico quanto simbólico: corrige uma representação secular que os diminuía literalmente no espaço visual do mapa. Para organizações multilaterais como a própria ONU, adotar uma projeção mais equitativa é coerente com discursos de descolonização do conhecimento e de representatividade que têm pautado a agenda global nas últimas décadas. Já o voto contrário dos Estados Unidos — única nação a rejeitar a proposta — sugere resistência a qualquer mudança de padrão que possa ser lida como questionamento de uma ordem estabelecida, ainda que as deliberações da Assembleia Geral não tenham força de lei e operem no campo da recomendação política.
É importante destacar que as resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas são dotadas de relevante peso político, mas não obrigam juridicamente os Estados-membros. A mudança, portanto, dependerá de adoção gradual por governos, sistemas educacionais, editoras de materiais didáticos e organismos internacionais. O Brasil, ao ter o IBGE alinhado à projeção Equal Earth desde antes da votação, parte em vantagem nesse processo de transição. A disponibilização dos mapas-múndi recentes a partir do Dia da Independência tem, assim, uma dimensão simbólica adicional: conecta soberania territorial à soberania cartográfica, lembrando que a forma como representamos o mundo não é neutra.
O que esperar daqui em diante é um processo de adoção lento, mas provavelmente irreversível. Revisões curriculares em sistemas de ensino, atualizações em atlas escolares e adaptações em plataformas digitais de mapeamento tendem a incorporar progressivamente representações mais equitativas. O debate gerado pela votação na ONU também deve estimular uma discussão pública mais ampla sobre como o conhecimento cartográfico é produzido, por quem e a serviço de quais interesses — uma conversa que extrapola a técnica e adentra o terreno da história, da política e da identidade coletiva das nações que por tanto tempo foram representadas menores do que realmente são.
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