Avaliamos que o sistema alimentar mundial não enfrenta apenas uma crise isolada de clima ou de geopolítica, mas sim a convergência perigosa de três forças que se retroalimentam: a degradação climática que reduz colheitas, a escassez de alimentos que acende tensões sociais, e os conflitos armados que interrompem exatamente as cadeias de suprimento capazes de aliviar a pressão. Essa tríade — clima, fome e guerra — está reconfigurando o mapa de risco global de maneira que poucos modelos econômicos tradicionais ainda conseguem capturar com precisão.

A evidência mais recente vem de novas pesquisas que mapeiam com rigor científico onde esses riscos são mais agudos. O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima, conhecido pela sigla em inglês Cadi e desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, rastreia como as mudanças climáticas estão remodelando a produtividade agrícola ao redor do mundo. A conclusão central dos envolvidos é direta: as perdas mais severas estão concentradas nas regiões tropicais, exatamente onde a capacidade institucional de absorver choques costuma ser menor e onde a dependência da agricultura de subsistência é mais elevada.

Não se trata de projeção distante. Secas severas e eventos climáticos extremos já estão prejudicando colheitas em múltiplas regiões simultaneamente. Um fenômeno El Niño atualmente em desenvolvimento — padrão climático que aquece as águas do Pacífico equatorial e distorce regimes de chuva em escala global — ameaça agravar ainda mais a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ciclo agrícola. A Indonésia, um dos maiores produtores de arroz do mundo, já registra imagens emblemáticas desse processo: arrozais de Java Ocidental rachados e secos, retrato concreto de uma produtividade em colapso localizado. Quando uma região produtora com esse peso deixa de entregar, o efeito se propaga por toda a cadeia global de preços.

O segundo argumento que sustenta nossa tese é que as guerras não apenas coexistem com essa crise alimentar — elas a amplificam ativamente. O conflito na Ucrânia provocou turbulências repetidas nos mercados internacionais de grãos, dado que aquela região concentra parcela expressiva da produção e exportação mundial de trigo e milho. Ao mesmo tempo, o conflito envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz — corredor marítimo estratégico por onde flui parte significativa do petróleo mundial — elevou os preços de combustíveis e fertilizantes, encarecendo a produção agrícola para fazendeiros de todos os continentes. O resultado é uma pressão dupla sobre o agricultor: menos chuva e mais custo. Historicamente, essa combinação é uma das mais destrutivas para a segurança alimentar de países de renda média e baixa.

O terceiro elo da cadeia é o mais preocupante do ponto de vista político: a fome como combustível de conflito. Especialistas alertam há muito tempo — e a literatura histórica sobre o tema é vasta — que a insegurança alimentar aguda costuma preceder agitações sociais e, em ambientes institucionalmente frágeis, pode catalisar guerras civis ou disputas violentas por terra e água. Quando famílias não conseguem mais se alimentar, a migração forçada se intensifica, populações inteiras se deslocam e a pressão sobre recursos escassos em regiões vizinhas cresce. O ciclo se fecha: mais conflito, mais ruptura de cadeia produtiva, mais fome.

É necessário, contudo, considerar um contra-argumento relevante. Parte da comunidade acadêmica questiona o determinismo entre escassez alimentar e conflito armado, argumentando que a governança local, a coesão social e a capacidade de resposta humanitária são variáveis igualmente decisivas. Países que viveram secas severas sem descambar para a violência — como algumas nações do Sahel em determinados ciclos — mostram que o destino não está selado apenas pelo clima ou pelos preços de grãos. Intervenções oportunas de política pública, acesso a estoques reguladores e redes de proteção social podem quebrar o ciclo mesmo em condições adversas.

Ainda assim, a direção geral do risco é inequívoca, e investidores, empresários e tomadores de decisão não podem ignorá-la. Para quem opera em cadeias agroindustriais, a mensagem é que a volatilidade de insumos — especialmente fertilizantes e combustíveis — tende a permanecer estruturalmente elevada enquanto tensões geopolíticas em regiões produtoras de energia persistirem. Para portfólios de investimento com exposição a mercados emergentes tropicais, a combinação de El Niño com fragilidade institucional representa fator de risco adicional que merece precificação explícita. E para governos, a janela para construir resiliência alimentar — por meio de estoques, diversificação de fornecedores e infraestrutura de irrigação — se estreita a cada estação seca que passa sem resposta adequada. Observamos que o custo de agir preventivamente, por mais elevado que pareça, tende a ser sistematicamente menor do que o custo de administrar as consequências de uma crise alimentar que já se converteu em conflito.