Por que o mapa do mundo que aprendemos na escola pode estar distorcendo nossa percepção da realidade? Essa pergunta, que parece filosófica à primeira vista, ganhou resposta institucional concreta: na última sexta-feira, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 164 votos favoráveis, a adoção da projeção cartográfica Equal Earth como representação de referência para o planeta. O único voto contrário foi o dos Estados Unidos, e seis países se abstiveram. A decisão coincide com o Dia da Independência do Brasil, data escolhida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para disponibilizar, em sua loja virtual, os mapas-múndi brasileiros lançados entre 2024 e 2026, incluindo a versão mais recente, já alinhada à projeção aprovada pela ONU.
Para entender o alcance dessa mudança, é preciso voltar ao século 16. O cartógrafo flamengo Gerardus Mercator criou, naquele período, uma projeção que se tornaria dominante por séculos: pensada para auxiliar a navegação marítima, ela sacrifica a precisão das proporções territoriais em favor de ângulos corretos, facilitando o traçado de rotas. O problema é que, ao fazer isso, a projeção de Mercator distorce dramaticamente o tamanho dos continentes. Regiões localizadas próximas aos polos, como a América do Norte e a Groenlândia, aparecem enormemente ampliadas, enquanto o continente africano e a América do Sul surgem visualmente menores do que são na realidade. Esse mapa, criado sob a perspectiva dos colonizadores europeus e amplamente disseminado pelo mundo ocidental, passou a moldar a percepção geopolítica e cultural sobre quais lugares eram grandes e importantes — e quais eram periféricos.
A reivindicação por uma representação cartográfica mais fiel à realidade não é nova. Movimentos acadêmicos, geógrafos e organizações do Sul Global vinham, há décadas, apontando as distorções da projeção de Mercator como um problema que vai além da técnica: trata-se de uma questão de equidade simbólica. A fundamentação da proposta aprovada na ONU é resultado direto de um esforço coordenado pela União Africana (UA), o bloco que reúne os países do continente mais prejudicado historicamente pela distorção visual. A África, que é o segundo maior continente do mundo em extensão territorial, aparece nos mapas tradicionais com uma fração do tamanho que efetivamente ocupa. O mesmo vale para a América do Sul, cuja dimensão real raramente corresponde à imagem mental que muitas pessoas ao redor do mundo têm dela.
O IBGE não chegou à Equal Earth apenas agora. A autarquia vinha adotando progressivamente representações cartográficas mais equilibradas, com lançamentos que cobrem o período de 2024 a 2026. A Diretora de Geociências do IBGE, Maria do Carmo Bueno, declarou, segundo o resumo da notícia, que a adoção da projeção Equal Earth pela ONU reforça a posição do instituto de acompanhar de forma contínua as inovações cartográficas e de adotar representações que dialoguem com demandas sociais por equilíbrio e justiça na forma de mapear o planeta. A escolha do Dia da Independência como data de disponibilização dos mapas não parece casual: carrega um simbolismo sobre soberania e identidade nacional que se alinha ao debate mais amplo sobre representação.
A aprovação na Assembleia Geral da ONU merece uma nota importante sobre seu mecanismo. Deliberações da Assembleia Geral, diferentemente das resoluções do Conselho de Segurança, não têm força de lei vinculante para os Estados-membros. Elas expressam, contudo, um consenso político relevante, capaz de orientar práticas em organismos internacionais, instituições educacionais e governos que optam por adotar os referenciais da ONU. Com 164 países votando favoravelmente, o sinal político é inegável: há uma maioria esmagadora do mundo disposta a revisar a forma como o planeta é representado.
Os atores que ganham com essa mudança são claros. Países do Sul Global — em especial os africanos e os sul-americanos —, que historicamente tiveram seus territórios diminuídos nos mapas dominantes, passam a contar com uma representação mais proporcional e, portanto, mais digna de sua real extensão e relevância. Do ponto de vista educacional e cultural, a mudança pode influenciar gerações de estudantes que terão uma noção mais precisa da geografia mundial. Para o Brasil, país de dimensões continentais muitas vezes subestimadas na percepção internacional, a adoção ampla da Equal Earth tem potencial de reforçar sua posição como uma das maiores nações do planeta em área territorial.
O único voto contrário, dos Estados Unidos, é significativo. O país é um dos mais beneficiados pela projeção de Mercator, que faz seu território parecer muito maior do que o de nações próximas ao equador. A posição norte-americana, ainda que isolada numericamente, sinaliza que a transição para novos padrões cartográficos poderá enfrentar resistência em contextos em que a influência estadunidense é forte, como em determinados materiais educacionais e plataformas digitais globais.
O que esperar adiante depende, em grande medida, da velocidade com que governos, editoras, plataformas tecnológicas e sistemas educacionais absorvem a sinalização da ONU. Mudanças cartográficas de fundo cultural tendem a ser lentas: o mapa de Mercator sobreviveu durante séculos não por mérito técnico puro, mas por inércia institucional e interesse político. A decisão da ONU e o movimento do IBGE representam, nesse sentido, um ponto de inflexão — não uma virada imediata, mas um marco a partir do qual será cada vez mais difícil ignorar o debate sobre justiça na representação geográfica do mundo.
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