O que começou como uma suspeita de venda de títulos financeiros falsos revelou, ao longo de meses de investigação, um esquema muito mais amplo e sofisticado. A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, aponta Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, como o centro de uma estrutura criminosa que teria inflado artificialmente o patrimônio da instituição, atraído bilhões de reais de investidores e usado táticas de intimidação para proteger o esquema. A quinta fase da operação, deflagrada em maio de 2025, trouxe a prisão de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, marcando uma nova escalada nas investigações.

Para entender o estágio atual do caso, é preciso recuar alguns meses. O Banco Master era, até pouco tempo atrás, uma das instituições financeiras de médio porte que mais crescia no Brasil, atraindo recursos de investidores por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas acima da média do mercado. O crescimento acelerado, no entanto, já gerava desconfiança em analistas e no próprio Banco Central. No fim de 2024, o Banco Central decretou a liquidação da instituição após a prisão de Daniel Vorcaro, encerrando abruptamente as operações de um banco que movimentava bilhões de reais.

Segundo apuração do g1.globo.com, o coração do esquema investigado pela PF seria uma espécie de “fábrica” de documentos artificiais. Funcionários do banco teriam criado contratos, extratos, planilhas e procurações para simular empréstimos e operações financeiras que nunca existiram de fato. Em vários casos, pessoas identificadas como tomadoras de crédito afirmaram não reconhecer os empréstimos registrados em seus nomes. A suspeita é que essas carteiras de crédito fictícias serviam para registrar patrimônio inexistente nos balanços do banco, tornando a instituição artificialmente maior e mais sólida do que realmente era.

Os crimes imputados a Daniel Vorcaro são variados e graves. A Polícia Federal investiga gestão fraudulenta de instituição financeira, enquadrada no artigo 4º da Lei 7.492/86, com pena de 3 a 12 anos de prisão; estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal, com pena de 1 a 5 anos; além de lavagem de dinheiro, corrupção, formação de organização criminosa, coerção, intimidação e invasão de dispositivos informáticos. O conjunto de acusações sugere que a investigação enxerga não apenas um executor, mas uma estrutura organizada com divisão de funções e mecanismos ativos de proteção.

Os atores envolvidos no caso têm posições e incentivos muito distintos. Para Daniel Vorcaro e seu grupo, o objetivo central era manter a aparência de solidez do banco o maior tempo possível, captando recursos de novos investidores para honrar compromissos com os anteriores — dinâmica que especialistas comparam a um esquema Ponzi sofisticado. Para os investidores, muitos deles pessoas físicas atraídas pelos altos rendimentos dos CDBs do Master, o colapso da instituição representou risco concreto de perda patrimonial, em parte mitigado pelas garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para valores até R$ 250 mil por CPF. Para o Banco Central, o caso expõe lacunas na supervisão de instituições de médio porte e a necessidade de mecanismos mais ágeis de detecção de fraudes contábeis.

A prisão de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, indica que as investigações avançaram para o círculo familiar e de suporte do principal investigado. Em operações dessa natureza, a expansão do alvo costuma ocorrer quando os investigadores acumulam evidências suficientes para suspeitar que pessoas próximas ao principal acusado participaram ativamente da ocultação de ativos, movimentação de recursos ou articulação do esquema. A PF não divulgou detalhes específicos sobre o papel atribuído a Henrique, mas sua prisão na quinta fase da operação sugere que ele não é apenas uma figura periférica no caso.

Do ponto de vista das ramificações, o caso Master tem múltiplas vítimas e múltiplos perdedores. Os investidores pessoas físicas que aplicaram acima do limite de cobertura do FGC enfrentam incerteza sobre a recuperação de seus recursos. Instituições financeiras que eventualmente tinham exposição ao banco, seja por operações interbancárias ou pela aquisição de carteiras de crédito, também podem registrar perdas. O sistema financeiro como um todo sofre um dano reputacional sempre que um esquema dessa magnitude chega ao conhecimento público, pois abala a confiança dos investidores em instrumentos de renda fixa emitidos por bancos menores.

No campo regulatório, o caso já provocou debates sobre o papel do FGC, que pode ser chamado a honrar garantias em um volume expressivo, e sobre os critérios que o Banco Central utiliza para monitorar a qualidade das carteiras de crédito das instituições sob sua supervisão. Há pressão de parlamentares e entidades do setor para que as regras de transparência e auditoria externa de bancos médios sejam revisadas, reduzindo a janela de tempo em que um esquema fraudulento pode operar sem ser detectado.

O que esperar adiante é uma sequência de desdobramentos judiciais que deve se estender por meses ou anos. A Polícia Federal ainda pode deflagrar novas fases da operação à medida que consolida provas e identifica novos envolvidos. O Ministério Público Federal precisará converter os indiciamentos em denúncias formais para que os réus sejam efetivamente processados. Paralelamente, a liquidação do Banco Master pelo Banco Central segue seu curso administrativo, com o objetivo de apurar o patrimônio real da instituição e definir o que pode ser devolvido aos credores. O caso se consolida como um dos maiores escândalos do sistema financeiro brasileiro na última década e deve influenciar tanto o arcabouço regulatório quanto a percepção de risco dos investidores em relação a produtos de renda fixa de bancos de menor porte.