O que acontece quando o maior parceiro comercial do mundo decide revisar as regras do jogo poucos dias antes do prazo final de uma negociação? É essa a pergunta que o Brasil precisa responder às vésperas de 15 de julho de 2025, data-limite para um entendimento com Washington sobre um conjunto de tarifas adicionais propostas pelo governo Donald Trump que, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), pode afetar nada menos do que 4,1 mil produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, correspondendo a US$ 14,9 bilhões em exportações.
Para entender como chegamos a esse ponto, é preciso recuar ao longo ciclo de reorientação da política comercial americana iniciado no primeiro mandato de Trump e aprofundado na sua volta à Casa Branca. A administração republicana tem adotado, de forma sistemática, a chamada política de tarifas recíprocas — um mecanismo pelo qual os Estados Unidos buscam equiparar as condições de acesso ao seu mercado com as condições que outros países oferecem aos produtos americanos. Nesse contexto, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) passou a investigar práticas comerciais de diferentes economias, incluindo o Brasil, identificando o que classificou como barreiras desleais ao comércio.
No caso brasileiro, o USTR apontou quatro áreas de suposta desvantagem para empresários americanos: o sistema de pagamentos instantâneos PIX, as políticas de etanol, questões ligadas ao desmatamento e a proteção à propriedade intelectual. A lista, à primeira vista heterogênea, revela a abrangência da estratégia americana: ao incluir temas regulatórios, ambientais e financeiros, Washington amplia sua margem de barganha muito além das tarifas tradicionais sobre bens físicos. O governo brasileiro, por sua vez, rechaçou formalmente essas acusações por meio de documento enviado ao governo Trump na semana anterior ao início das audiências públicas em Washington, rejeitando a tese de práticas desleais.
Os atores envolvidos nessa disputa têm incentivos bem distintos. Do lado americano, a administração Trump usa as tarifas como instrumento de pressão para obter concessões em setores estratégicos, ao mesmo tempo em que sinaliza para sua base eleitoral uma postura de defesa do produtor doméstico. Do lado brasileiro, o governo federal enfrenta uma equação delicada: ceder em temas sensíveis como PIX — uma infraestrutura financeira pública de amplo uso popular — ou etanol poderia gerar custos políticos internos elevados. A CNI, representando o setor industrial, optou por uma estratégia ativa: além de quantificar o impacto potencial do tarifaço, levou representantes do setor produtivo a Washington para participar do processo de audiências públicas, buscando influenciar diretamente o debate americano. O presidente da entidade, Ricardo Alban, afirmou em nota que a imposição de uma tarifa adicional de 25% não se justifica sob aspectos jurídicos, econômicos ou estratégicos, defendendo o diálogo bilateral como caminho preferencial.
Uma decisão relevante foi tomada pelo governo brasileiro ao optar por não se inscrever para discursar nas audiências públicas realizadas em Washington a partir desta segunda-feira. A escolha reflete uma aposta na via diplomática e nas negociações de bastidores conduzidas pela embaixada brasileira na capital americana, em vez da disputa no espaço público das audiências. Trata-se de uma escolha de tom: o governo prefere não transformar o episódio em confronto aberto, ao menos publicamente, enquanto o prazo ainda está aberto.
Os produtos listados pela CNI como potencialmente afetados ilustram a diversidade da pauta exportadora brasileira vulnerável a esse choque. Entre eles estão ferro-gusa não ligado — insumo metálico usado na siderurgia —, açúcar bruto, álcool etílico, molduras de madeira e hidróxido de alumínio. A combinação de commodities agrícolas, produtos industriais e insumos químicos mostra que o impacto de um tarifaço não se concentraria em um único setor, mas se espalharia por cadeias produtivas variadas, afetando trabalhadores e empresas de diferentes regiões do país.
Em termos de quem ganha e quem perde, a lógica é relativamente direta. Produtores brasileiros que dependem do mercado americano como destino relevante seriam os mais prejudicados de imediato, uma vez que tarifas adicionais encarecem seus produtos para compradores nos EUA e reduzem sua competitividade frente a concorrentes de outros países. No lado americano, importadores e indústrias que utilizam insumos brasileiros também sofreriam pressão de custos. Os eventuais beneficiários seriam produtores americanos que competem com esses itens no mercado doméstico — exatamente o público que a política tarifária de Trump busca proteger. Em escala mais ampla, a incerteza gerada por negociações como essa tende a frear investimentos e decisões de longo prazo em toda a cadeia.
O que esperar adiante depende, em grande medida, do que ocorrer nas próximas semanas. Com o prazo de 15 de julho se aproximando, a margem para um acordo negociado é estreita, mas não inexistente. Historicamente, negociações comerciais sob pressão de prazo costumam avançar de forma não linear, com concessões pontuais e linguagem diplomática que permite a ambos os lados apresentar o resultado como uma vitória. O setor privado brasileiro, ao levar sua voz diretamente a Washington, tenta ampliar o custo político americano de uma imposição unilateral. O desfecho dessa disputa comercial terá consequências não apenas para as exportações afetadas, mas para o padrão da relação econômica entre Brasil e Estados Unidos em um momento em que o mundo redefine suas cadeias de suprimentos e seus vínculos comerciais.
Comentários