A cena foi reveladora: chanceleres de algumas das maiores economias emergentes do mundo encerraram dois dias de negociações em Nova Déli sem conseguir assinar uma declaração conjunta. Segundo reportagem do g1.globo.com, o impasse central girou em torno do conflito no Oriente Médio — especificamente a guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel — e expôs uma fratura que vai muito além de uma divergência diplomática pontual. Nossa leitura é direta: o Brics enfrenta uma crise de identidade que pode comprometer sua relevância como bloco geopolítico e econômico nas próximas décadas.

O bloco nasceu com a proposta de representar uma voz alternativa à ordem ocidental. Durante anos, essa narrativa funcionou porque os membros compartilhavam um interesse difuso em comum: reduzir a dependência do dólar, ampliar o peso dos países em desenvolvimento nas instituições multilaterais e criar contrapontos ao G7. Mas à medida que o Brics se expandiu — incorporando países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Irã e Etiópia — a coesão interna tornou-se cada vez mais frágil. Admitir membros com rivalidades históricas e alinhamentos geopolíticos contraditórios foi uma aposta arriscada, e a reunião de Nova Déli mostrou o preço dessa escolha.

O episódio concreto é emblemático. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou abertamente que um integrante do bloco vetou trechos da declaração conjunta — sem citar diretamente os Emirados Árabes Unidos, mas deixando pouco espaço para interpretação. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o Irã lançou ataques com mísseis e drones contra território emiradense em diversas ocasiões, acusando Abu Dhabi de participação direta em operações militares junto aos americanos. Ter esses dois países sentados à mesma mesa, tentando assinar um documento comum sobre paz e soberania, é uma contradição estrutural — não uma falha de comunicação.

Comparativamente, o precedente histórico mais próximo é instrutivo. A Liga Árabe, ao longo de décadas, sofreu de paralisia semelhante toda vez que conflitos regionais colocaram membros em lados opostos de um mesmo campo de batalha. O resultado foi uma organização cada vez menos capaz de influenciar eventos concretos, reduzida a fóruns retóricos. O Brics corre risco análogo se não encontrar mecanismos de governança que separem os temas de convergência econômica — como o comércio em moedas locais e a reforma do FMI — das disputas geopolíticas que agora invadem suas pautas com força crescente.

É verdade que existe um contra-argumento relevante. Blocos heterogêneos sobrevivem e até prosperam quando conseguem compartimentar suas agendas. A própria União Europeia, frequentemente paralisada em temas de política externa, mantém coesão notável em regulação comercial e mercado único. Não é impossível imaginar um Brics que avance em acordos de infraestrutura, pagamentos bilaterais e câmaras de compensação sem exigir unanimidade geopolítica. O chanceler iraniano sinalizou que espera retomar o tema na cúpula prevista para este ano, o que indica que o jogo ainda não acabou.

Mas esse otimismo tem limites práticos. Sem declarações conjuntas, o bloco perde poder de sinalização — justamente o ativo que mais interessa a quem quer posicionar o Brics como alternativa ao Ocidente. Uma nota da presidência expondo desacordos, como a que o governo indiano foi obrigado a divulgar, não inspira confiança de aliados nem preocupação de adversários. É o equivalente diplomático de uma reunião de diretoria que termina sem ata aprovada.

Para investidores, empresários e tomadores de decisão, a lição prática é clara: o Brics como bloco unificado de pressão geopolítica deve ser tratado com ceticismo crescente. Os acordos bilaterais entre seus membros — comércio Brasil-China, energia Rússia-Índia, investimentos do Golfo na África — continuam relevantes e seguem sua própria lógica. Mas apostar em iniciativas que dependam de consenso multilateral dentro do bloco, como uma moeda comum ou um sistema de pagamentos coletivo, exige cautela redobrada. A reunião de Nova Déli não encerrou o Brics, mas mostrou com clareza que sua coesão é muito mais frágil do que seus defensores admitem.