Avaliamos que a queda de 11% nas remessas globais de smartphones no segundo trimestre deste ano — levando o volume ao menor nível desde 2013, conforme estimativas preliminares da Counterpoint Research — não representa uma simples contração cíclica de consumo. O que se desenha é uma ruptura de cadeia produtiva com efeitos duradouros: a escassez de chips de memória, alimentada pela prioridade que os fabricantes de semicondutores estão conferindo aos data centers de inteligência artificial, está reescrevendo as regras de competição no setor de dispositivos móveis. Quem entender essa dinâmica primeiro terá vantagem — quem ignorá-la pagará um preço considerável.

O primeiro argumento que sustenta essa tese é histórico. Atingir o menor nível de remessas em 13 anos é um sinal de magnitude rara. O mercado global de smartphones passou por momentos difíceis — a saturação do ciclo de substituição a partir de 2016, o impacto da pandemia em 2020 e as tensões comerciais sino-americanas — mas, em todos esses episódios, a escassez de componentes foi, no máximo, fator agravante secundário. Desta vez, ela ocupa o centro do problema. A Counterpoint manteve a previsão de queda de cerca de 14% nas remessas globais ao longo de todo o ano corrente, indicando que o segundo trimestre não é o fundo do poço, mas um ponto intermediário de uma trajetória descendente ainda em curso. E, mais relevante, a casa de pesquisa afirma que a escassez de memória provavelmente persistirá até 2027 — o que retira qualquer esperança de normalização rápida.

O segundo argumento diz respeito à divergência entre os fabricantes, que revela onde está o valor real na cadeia. Observamos que Apple e Samsung navegaram a crise de formas distintas, mas ambas com resultados superiores ao mercado. A Apple, segundo o mesmo relatório, registrou aumento de 3% nas remessas e elevou sua participação no mercado global para um recorde de 20% no trimestre. A chave foi a demanda resiliente por sua linha premium e a manutenção dos preços — o que só é possível quando o consumidor percebe valor diferenciado e não encontra substituto equivalente. A Samsung, por sua vez, recuperou a liderança com participação de 24%, apoiada nas fortes vendas da linha Galaxy S26, em melhor disponibilidade de produtos e em uma política de preços mais contida em mercados como Índia e Oriente Médio. Em contrapartida, Xiaomi, Oppo e Vivo registraram as maiores quedas entre os cinco maiores fabricantes, reflexo direto de sua exposição concentrada nos segmentos de entrada e intermediário — exatamente aqueles onde os aumentos de custo dos chips se traduzem mais rapidamente em perda de competitividade, pois a margem para absorver choques é menor e o consumidor mais sensível a preço.

O terceiro argumento é estrutural: a disputa por memória entre IA e eletrônicos de consumo não é conjuntural. Os fornecedores de chips priorizaram deliberadamente os clientes de data centers em detrimento dos eletrônicos de consumo. Essa decisão é racional do ponto de vista dos fabricantes de semicondutores — as margens nos contratos de IA são superiores —, mas cria um gargalo sistêmico para toda a indústria de dispositivos. Os fabricantes de smartphones foram forçados a repassar os custos mais altos aos consumidores, especialmente nos segmentos de entrada e intermediário, reduzindo a demanda exatamente onde a base de usuários potenciais é maior. É um círculo vicioso que tende a se auto-reforçar enquanto a escassez persistir.

Há, contudo, um contra-argumento relevante a considerar. A própria Apple, exemplo de resiliência neste cenário, enfrenta um risco à frente: analistas, conforme apontado no relatório da Counterpoint, preveem aumentos de preços nos próximos meses para a linha da empresa. Se isso se confirmar, mesmo o segmento premium poderá sentir erosão de demanda, especialmente em mercados emergentes onde a elasticidade-preço é maior. Isso significa que a vantagem competitiva atual da Apple pode ser mais frágil do que os números do trimestre sugerem.

Para investidores, empresários e tomadores de decisão, a conclusão é direta: este não é o momento de apostar em uma recuperação rápida do mercado de smartphones como um todo. Posições concentradas em fabricantes com alta exposição ao segmento de entrada e mercados emergentes carregam risco elevado enquanto a escassez de memória não se resolver — e a projeção é que isso não aconteça antes de 2027. Por outro lado, empresas com portfólio premium consolidado, capacidade de precificação e diversificação geográfica tendem a preservar margem e participação mesmo num ambiente adverso. No setor de tecnologia de consumo, a crise de memória está funcionando como um filtro brutal: quem tem marca forte e diferenciação sobrevive; quem compete por preço em commodities de hardware está exposto a uma pressão que não deve arrefecer tão cedo.