O Brasil registra índices históricos de endividamento das famílias, e o governo federal respondeu ao problema com o lançamento oficial do Desenrola 2.0 na primeira semana de maio de 2026. O programa permite a renegociação de dívidas com descontos e condições facilitadas de pagamento, incluindo juros reduzidos, e é voltado para pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos — o equivalente a R$ 8.105. Trata-se de uma reedição do pacote que vigorou entre 2023 e 2024, ampliado e relançado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva.
A iniciativa é bem-vinda do ponto de vista social e econômico imediato. Ao permitir que famílias endividadas regularizem sua situação, o programa funciona como uma injeção de renda indireta, desbloqueando o acesso ao crédito e ao consumo para milhões de brasileiros que estavam com o nome negativado. Para economistas e gestores públicos, trata-se de uma ferramenta legítima de política econômica anticíclica.
No entanto, um olhar mais crítico e estrutural sobre o fenômeno do endividamento no Brasil revela limitações importantes dessa abordagem. É esse o alerta feito pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor do livro Parcelado, publicado pela Editora Fósforo. Em sua pesquisa, Santos analisa como o consumo via crédito se tornou parte integrante do orçamento doméstico das famílias brasileiras, especialmente nas periferias urbanas de São Paulo.
“Essas iniciativas são importantes, porque mostram que o governo está atento aos problemas da sociedade e não simplesmente agindo como se essa fosse uma questão apenas entre a população e os bancos ou redes de varejo”, afirma o pesquisador. Mas ele ressalva que programas como o Desenrola têm, em geral, impacto de curto e médio prazo, sem endereçar as causas profundas do problema.
O principal risco apontado por Lopes dos Santos é a criação de uma cultura de renegociação permanente. Segundo ele, ao repetir ciclos de renegociação sem atacar os fatores estruturais que levam ao endividamento, o Estado pode inadvertidamente normalizar esse comportamento financeiro. “Pode criar uma lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais estruturais”, diz o pesquisador.
O livro Parcelado documenta um fenômeno que muitos brasileiros conhecem na prática: o parcelamento como modo de vida. Nas periferias de São Paulo estudadas por Santos, o crédito não é usado apenas para bens duráveis como geladeiras ou televisores. O parcelamento entra em todas as frentes da vida, inclusive para comprar alimentos e roupas básicas. Essa é uma realidade que reflete a precariedade da renda e a insuficiência de políticas de proteção social mais abrangentes.
O fenômeno do endividamento no Brasil tem raízes complexas. A combinação de juros historicamente elevados, instabilidade no mercado de trabalho, informalidade generalizada e baixa educação financeira cria um ambiente propício para que as famílias recorram ao crédito de forma recorrente e muitas vezes desordenada. O crédito rotativo do cartão de crédito, com taxas que podem ultrapassar 400% ao ano, é um dos maiores vilões desse quadro.
Nesse contexto, o Desenrola 2.0 representa um alívio pontual, mas não uma solução sistêmica. Para que o programa tenha impacto duradouro, especialistas apontam a necessidade de acompanhá-lo de medidas complementares: educação financeira nas escolas e comunidades, regulação mais rígida das taxas de juros praticadas no crédito ao consumidor, fortalecimento de alternativas de crédito mais baratas e fomento à renda estável por meio do mercado de trabalho formal.
A própria repetição do programa — o Desenrola já está em sua segunda edição em menos de três anos — levanta questões sobre sua eficácia estrutural. Se o ciclo de endividamento se repete a ponto de exigir uma nova rodada de renegociações em curto espaço de tempo, é sinal de que algo mais profundo precisa ser tratado nas políticas públicas voltadas às finanças das famílias brasileiras.
O trabalho de Kauê Lopes dos Santos oferece uma contribuição valiosa ao debate, ao trazer para o centro da discussão não apenas os números do endividamento, mas as práticas cotidianas e culturais que sustentam esse fenômeno. Entender por que os brasileiros parcelam até o feijão é essencial para construir políticas públicas que sejam, de fato, transformadoras e não apenas paliativas.
O Desenrola 2.0 é necessário e deve ser implementado com eficiência. Mas ele precisa ser encarado como o começo de uma agenda mais ampla de reformas no mercado de crédito e de fortalecimento da renda das famílias, e não como solução definitiva para um problema que tem raízes muito mais profundas do que qualquer programa de renegociação pode alcançar.
Fonte: G1 Globo — g1.globo.com
Comentários