O Brasil caminha para ampliar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina dos atuais 30% para 32%, medida que, segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), deve elevar a demanda anual pelo biocombustível em aproximadamente 1 bilhão de litros. A proposta será levada ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em sua próxima reunião, prevista para o início de maio, conforme comunicado divulgado pelo governo federal na última sexta-feira, dia 24 de abril.

A discussão ganha relevância em um cenário de pressão crescente sobre os preços dos combustíveis fósseis no mercado internacional. O contexto geopolítico adverso, marcado por tensões no Oriente Médio envolvendo o Irã, tem impactado as cotações do petróleo e, por consequência, os preços da gasolina e do diesel no Brasil. Nesse ambiente, ampliar a participação de um combustível produzido internamente surge como uma estratégia de segurança energética com apelo econômico e ambiental.

A trajetória de ampliação da mistura não é novidade para o setor. Em agosto do ano passado, o Brasil já havia elevado o percentual de etanol anidro na gasolina de 27% para 30%, a chamada mistura E30. Agora, a transição do E30 para o E32 representaria um acréscimo de 1 bilhão de litros na demanda anual. Em comparação com o patamar anterior de 27%, a demanda adicional acumulada desde então chegaria a 2,4 bilhões de litros por ano, de acordo com os dados da Unica.

Para a entidade que representa os produtores de cana-de-açúcar e etanol, a medida é tecnicamente viável e conta com infraestrutura já consolidada no país. “A ampliação da mistura é um caminho que o Brasil já conhece e sabe operar. O etanol permite avançar na segurança energética a partir de uma solução disponível, produzida no país e em larga escala, com ganhos relevantes também do ponto de vista ambiental, ao reduzir as emissões ao longo do ciclo de vida dos combustíveis”, destacou a Unica em nota.

Do ponto de vista ambiental, a substituição parcial da gasolina pelo etanol é considerada uma das formas mais eficazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no setor de transportes. Estudos do setor indicam que o etanol de cana-de-açúcar pode emitir até 70% menos carbono do que a gasolina ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde o plantio da cana até a queima no motor. A elevação da mistura, portanto, contribui diretamente para as metas climáticas assumidas pelo Brasil em acordos internacionais.

No campo econômico, o impacto para os consumidores depende da relação de preços entre o etanol e a gasolina nas bombas. Com maior demanda pelo biocombustível, há expectativa de aquecimento da produção nas usinas brasileiras, o que pode estimular investimentos e geração de empregos em estados como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, principais polos sucroalcooleiros do país.

O monitoramento dos preços nos postos também é um fator relevante. O Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, que acompanha os dados divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), aponta que gasolina, etanol e diesel seguem pressionados tanto por fatores externos — como a alta do petróleo no mercado internacional — quanto por variáveis domésticas, incluindo câmbio e tributação.

A capacidade produtiva do setor sucroalcooleiro brasileiro é apontada como suficiente para absorver o aumento de demanda previsto com a mudança para o E32. O Brasil é o maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar e o segundo maior produtor global do biocombustível, atrás apenas dos Estados Unidos. A combinação de extensas áreas agrícolas, tecnologia consolidada e logística de distribuição garante ao país vantagem competitiva única nesse segmento.

A aprovação formal da medida ainda depende da deliberação do CNPE em maio. Caso aprovada, a implementação exigirá ajustes na cadeia de distribuição, mas o setor acredita que o cronograma é factível, uma vez que a estrutura operacional já foi adaptada nas transições anteriores. A expectativa do mercado é de que a decisão seja anunciada ainda no primeiro semestre de 2025, dando previsibilidade para usinas, distribuidoras e postos revendedores.

O avanço do Brasil na adoção de misturas mais elevadas de etanol na gasolina é visto internacionalmente como referência em política de biocombustíveis. Países como Índia e Indonésia acompanham de perto a experiência brasileira ao desenvolverem seus próprios programas de blending. A liderança do Brasil nesse campo reforça a importância estratégica do agronegócio para a economia nacional e para a transição energética global.

Fonte: G1 Globo