Por que um dos países mais ricos do mundo convive com menos de uma unidade de ar-condicionado para cada trinta residências? A pergunta parece estranha à primeira vista, mas revela um conjunto de fatores históricos, econômicos e climáticos que moldam a forma como os britânicos constroem e habitam seus imóveis — e que agora entram em tensão direta com uma realidade cada vez mais quente.
Durante séculos, o norte da Europa desenvolveu uma cultura construtiva voltada para o isolamento térmico e o aquecimento. As casas britânicas foram projetadas para reter calor em invernos longos e úmidos, não para dissipar temperatura em verões quentes. Paredes grossas, janelas duplas e sistemas de aquecimento central são a norma; a refrigeração mecânica, uma raridade. Esse legado arquitetônico explica, em boa medida, por que apenas cerca de 3% dos imóveis no Reino Unido contam com ar-condicionado, segundo dados trazidos pela reportagem do G1, enquanto nos Estados Unidos essa proporção chega a 88% das residências.
Nos últimos anos, porém, esse equilíbrio histórico começou a ser questionado. Ondas de calor sucessivas — fenômeno que se tornou mais frequente e mais intenso em toda a Europa — fizeram com que temperaturas antes consideradas excepcionais passassem a ser registradas com regularidade crescente. Em agosto de 2026, mais de dois terços do Reino Unido enfrentavam situação de seca, com reservatórios tão esvaziados que estruturas históricas submersas voltaram a emergir. Esse cenário de escassez hídrica e calor prolongado acelerou o debate sobre a necessidade de adaptar o parque habitacional britânico a uma nova realidade climática.
Diante disso, mais proprietários passaram a considerar a instalação de aparelhos de ar-condicionado. O movimento é compreensível do ponto de vista do conforto e da saúde, especialmente para populações vulneráveis, como idosos e crianças pequenas. Mas os obstáculos são numerosos e não se resumem à questão financeira.
O custo de instalação de um sistema completo em uma casa já construída ultrapassa £ 6 mil — o equivalente a cerca de R$ 44 mil, conforme informado pela reportagem. A razão é técnica: imóveis que não foram concebidos para receber esse tipo de equipamento exigem passagem de tubulações pelas paredes, o que frequentemente demanda reformas adicionais e pode comprometer a integridade estrutural ou estética do imóvel. Somam-se a isso os custos operacionais anuais, que variam de algumas centenas a alguns milhares de libras, dependendo do tamanho da propriedade — valores pressionados pelo fato de a eletricidade no Reino Unido custar aproximadamente o dobro da tarifa praticada nos Estados Unidos.
O sistema mais comum para esse tipo de instalação é o chamado split, que consiste em uma unidade externa — a condensadora — conectada por tubulações a uma unidade interna, instalada na parede ou no teto. O fluido refrigerante circula entre as duas unidades para resfriar o ambiente. No inverno, o ciclo pode ser invertido para fornecer aquecimento, tornando o equipamento mais versátil. Ainda assim, a presença da condensadora externa gera ruído e pode comprometer a aparência dos imóveis, o que em regiões com regras rígidas de planejamento urbano e patrimônio histórico representa um entrave adicional.
Há também uma dimensão coletiva que complica ainda mais a equação. O ar-condicionado, ao transferir o calor do interior para o exterior, contribui para o aquecimento do ambiente urbano ao redor — o chamado efeito de ilha de calor. Em cidades densamente construídas, como Londres, a proliferação de unidades condensadoras pode elevar a temperatura das ruas, criando um ciclo vicioso em que mais calor externo leva a mais uso de ar-condicionado, que por sua vez gera mais calor externo. Esse paradoxo climático é um dos argumentos frequentemente levantados por urbanistas e ambientalistas contra a adoção massiva da refrigeração mecânica sem uma estratégia mais ampla de adaptação urbana.
Os atores envolvidos nessa disputa têm incentivos muito distintos. Fabricantes e instaladores de equipamentos veem no mercado britânico uma oportunidade de crescimento expressiva, dado o baixo nível atual de penetração. Proprietários de imóveis buscam conforto imediato e proteção contra eventos de calor extremo, mas esbarram nos custos elevados. O governo enfrenta o dilema de incentivar a adaptação climática sem aprofundar a dependência energética nem agravar as emissões de carbono — especialmente num momento em que o país mantém metas ambiciosas de descarbonização.
Quem ganha no curto prazo são os setores de instalação e comércio de equipamentos, além de proprietários com capacidade financeira de arcar com os custos. Quem perde são os moradores de imóveis mais antigos, de menor renda ou localizados em áreas com restrições urbanísticas rígidas — justamente os mais vulneráveis aos efeitos do calor extremo. A desigualdade de acesso ao conforto térmico se converte, portanto, em uma dimensão social relevante do debate.
O que esperar adiante depende menos de uma decisão isolada e mais de um conjunto de transformações graduais. A tendência é que novos projetos residenciais incorporem soluções de resfriamento passivo — como ventilação cruzada, materiais de alta reflectância e sombreamento arquitetônico — antes de recorrer à refrigeração mecânica. Para o estoque habitacional já existente, o caminho mais provável é a adoção crescente, porém lenta, do ar-condicionado entre os estratos de maior renda, enquanto políticas públicas de eficiência energética e adaptação climática tentam oferecer alternativas mais acessíveis ao conjunto da população. O dilema britânico, em última análise, é um espelho em escala maior de um desafio global: como adaptar cidades e casas construídas para um clima que já não existe ao mundo que está chegando.
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