O Salão do Automóvel de Pequim 2025 não foi palco apenas de lançamentos de carros elétricos e conceitos futuristas sobre rodas. O grupo chinês Chery chamou atenção com uma novidade inusitada para um evento do setor automotivo: robôs humanoides expostos ao lado dos seus modelos de produção. A atração foi a família Mornine M1, desenvolvida pela Aimoga Robotics, empresa ligada ao conglomerado Chery, e já disponível para venda na China por 285.800 yuans — o equivalente a aproximadamente R$ 210 mil.

A Chery é amplamente conhecida no mercado brasileiro pelos utilitários esportivos da linha Tiggo, além das marcas Omoda e Jaecoo, que chegaram recentemente ao país. A diversificação para robótica humanoidE representa um movimento estratégico do grupo para ampliar sua presença no ecossistema de tecnologia e automação, indo muito além da indústria automotiva tradicional.

Os robôs Mornine M1 foram projetados com aparência inspirada em um corpo feminino e têm como propósito central interagir com pessoas em ambientes comerciais, como concessionárias e lojas de varejo. Segundo a fabricante, as aplicações previstas incluem uso empresarial, entretenimento, execução de tarefas operacionais e revenda para outras empresas. A ideia é que esses robôs funcionem como recepcionistas, promotores de vendas ou assistentes de atendimento ao cliente.

Durante o Salão de Pequim, o público pôde conferir os robôs em ação, mas apenas no modo de controle remoto. Funcionários da Chery operavam as máquinas por meio de um aplicativo em smartphones Android, posicionados discretamente atrás de uma pilastra no estande. Os robôs dançavam, cantavam em inglês e interagiam com os visitantes em mandarim, despertando curiosidade e atraindo multidões ao estande da marca.

O modo autônomo, que ainda não estava disponível para demonstração pública no evento, é considerado o diferencial mais robusto do produto. Nesse modo, a Mornine M1 utiliza inteligência artificial para tomar decisões em tempo real, tanto nas interações com seres humanos quanto na execução das tarefas para as quais foi programada. Essa capacidade de operar sem intervenção humana direta é o que posiciona o robô como uma solução comercial escalável.

Em termos físicos, o Mornine M1 pesa 70 quilos e mede 1,68 metro de altura — dimensões próximas às de um ser humano adulto de estatura mediana. O robô possui 40 articulações, o que permite uma movimentação relativamente fluida. Ele consegue caminhar a uma velocidade de até um metro por segundo e levantar objetos com peso de até 1,5 quilo. Durante a demonstração no salão, o som produzido ao caminhar sobre o piso de madeira chamou atenção, revelando ainda limitações na suavidade dos movimentos.

A autonomia energética é outro ponto que merece atenção. Cada carga da bateria garante aproximadamente duas horas de operação contínua, com um tempo de recarga estimado em mais duas horas. Para ambientes comerciais com longos horários de funcionamento, isso pode exigir o uso de múltiplas unidades em rodízio ou soluções de carregamento mais rápido no futuro.

A Aimoga Robotics afirma que já iniciou entregas do Mornine M1 em 2025, sinalizando que o produto saiu do estágio de protótipo e entrou em fase comercial efetiva. Esse avanço coloca a empresa entre os poucos fabricantes globais com robôs humanoides disponíveis para compra no mercado, em um segmento que ainda engatinha em escala de produção.

O lançamento do Mornine M1 no Salão de Pequim também reflete uma tendência mais ampla da indústria chinesa: a convergência entre automação, inteligência artificial e experiência do consumidor. Empresas de diferentes setores — da manufatura ao varejo — têm investido em robótica humanoide como camada adicional de atendimento, especialmente em mercados onde o custo de mão de obra qualificada cresce de forma constante.

Do ponto de vista geopolítico e tecnológico, a presença de robôs humanoides num salão do automóvel é também um recado simbólico: a China avança com rapidez no desenvolvimento de tecnologias de ponta, integrando hardware, IA e manufatura em produtos cada vez mais sofisticados. A Aimoga Robotics, ao lado de outras empresas chinesas do setor, disputa espaço com gigantes como Boston Dynamics e Tesla, que também desenvolvem plataformas robóticas bípedes para uso comercial e industrial.

Para o Brasil, o interesse é duplo. A Chery já possui presença relevante no mercado nacional com suas marcas automotivas, e a eventual chegada de produtos de robótica ao país — ainda que seja uma perspectiva de médio ou longo prazo — pode abrir discussões importantes sobre automação no varejo, impactos no mercado de trabalho e regulação de tecnologias emergentes. Por ora, o Mornine M1 permanece restrito ao mercado chinês, mas sua apresentação em feiras internacionais indica uma ambição global clara.

Fonte: G1 – Globo (g1.globo.com)