Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) publicada em junho de 2026 coloca números concretos sobre um problema que o setor produtivo brasileiro conhece bem, mas raramente consegue dimensionar com precisão: a insegurança patrimonial e logística compromete de forma estrutural a competitividade das empresas e, ao final da cadeia, onera o consumidor. A tese central que avaliamos a partir desses dados é direta — o custo da violência não é um evento isolado ou uma externalidade marginal; ele está embutido nos preços, nas decisões de investimento e na capacidade de crescimento das indústrias nacionais.
O primeiro argumento que sustenta essa leitura vem dos próprios números do levantamento. Um em cada cinco estabelecimentos industriais do país relatou ter tido cargas furtadas ou roubadas nos últimos cinco anos. Desse universo, 68% das ocorrências se deram em rodovias, o que não surpreende dado que o Brasil é historicamente dependente do modal rodoviário para o escoamento de sua produção. Com uma malha concentrada em poucos eixos e fiscalização desigual ao longo do território, as rodovias se tornam zonas de vulnerabilidade sistêmica. O dado de que 48% das ocorrências também foram registradas em áreas urbanas reforça que o problema não se restringe às estradas: o ambiente das cidades, com seus congestionamentos e pontos de entrega dispersos, é igualmente hostil à segurança logística.
O segundo argumento diz respeito ao impacto financeiro direto e ao que ele revela sobre o perfil das vítimas. Entre as empresas atingidas por roubo de carga, 42% registraram prejuízos de até R$ 50 mil. À primeira vista, esse valor pode parecer contido. Mas a pesquisa ouviu 500 indústrias de pequeno porte — para esse segmento, uma perda dessa magnitude pode representar meses de margem operacional e inviabilizar contratos ou ciclos de produção inteiros. Observamos, ainda, que 16% das indústrias também relataram furtos, roubos ou vandalismo nas próprias instalações, com destaque para fios, cabos e metais, citados por 60% dos atingidos. Esse dado específico aponta para um mercado paralelo organizado de sucata e materiais não ferrosos, que alimenta redes de receptação com longa histórica no país e que dificilmente será resolvido apenas com medidas de segurança privada.
O terceiro e talvez mais revelador argumento é o do repasse de custos. Para 62% das indústrias consultadas, os gastos com segurança no transporte elevam, em algum nível, o preço final dos produtos. Em 45% das empresas, esses investimentos geram impacto perceptível nos custos. Esse mecanismo de transmissão é clássico em economia: quando uma externalidade negativa — no caso, a violência — não é internalizada pelo Estado por meio de políticas públicas eficazes, o mercado a absorve via preços. O consumidor final paga, de forma invisível, pelo seguro, pelo monitoramento por rastreamento de veículos, pela escolta, pelas embalagens de segurança e por todo o aparato que as empresas precisam montar para compensar a deficiência de segurança pública.
A dimensão digital do problema merece atenção igualmente. Segundo o levantamento, 17% das indústrias relataram incidentes com dados sensíveis nos últimos cinco anos — incluindo vazamentos de informações e sequestros de dados, modalidade conhecida como ransomware no jargão da segurança cibernética. Entre as afetadas, 30% tiveram perdas financeiras diretas, 23% precisaram interromper operações e 17% registraram exposição de dados de clientes e funcionários. A convergência entre insegurança física e digital não é coincidência: ambas refletem um ambiente de baixo custo para o crime e de alta fragmentação nas estratégias de defesa das empresas, especialmente as de menor porte.
O contra-argumento mais razoável a essa leitura é que as perdas declaradas, em grande parte concentradas abaixo de R$ 50 mil, poderiam ser vistas como toleráveis dentro de um cálculo de risco empresarial normal. Algumas empresas de médio e grande porte já incorporam esses custos em seus modelos de precificação e possuem estruturas de segurança consolidadas. Além disso, a pesquisa se baseia em relatos autodeclarados, o que pode introduzir viés de seleção — empresas que sofreram perdas tendem a participar mais ativamente de consultas sobre o tema. Essas ressalvas são legítimas, mas não invalidam a magnitude do problema: um em cada cinco estabelecimentos industriais atingidos, em uma amostra ampla e representativa de pequenas, médias e grandes empresas de todo o país, é um indicador que não comporta relativização.
Para empresários e tomadores de decisão, os dados apresentados pela CNI reforçam a necessidade de tratar segurança logística e cibernética não como centro de custo acessório, mas como variável estratégica. A apresentação do estudo em audiência pública no Congresso Nacional sinaliza que o tema ganha relevância na agenda legislativa, o que pode abrir espaço para políticas de incentivo fiscal a investimentos em segurança ou para maior coordenação entre empresas e forças de segurança pública. Para investidores, o cenário aponta para oportunidades no segmento de soluções de rastreamento, monitoramento e segurança cibernética voltadas à indústria — mercado que tende a crescer enquanto o ambiente de risco não for resolvido de forma estrutural. A questão central permanece: enquanto o custo da insegurança seguir sendo socializado via preços ao consumidor, o problema continuará existindo sem o enfrentamento sistêmico que ele exige.
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