O que acontece quando a geopolítica da guerra na Ucrânia bate à porta da cadeia de abastecimento de combustíveis do Brasil? Essa pergunta ganhou contornos concretos na sexta-feira (7) quando o Senado dos Estados Unidos aprovou, por ampla maioria, um projeto de lei que endurece as sanções contra a Rússia e abre a possibilidade de tarifas comerciais sobre países que continuam comprando petróleo e derivados russos — categoria na qual o Brasil se enquadra de forma destacada.

Para entender o peso da decisão, é preciso recuar alguns anos. Antes da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Brasil já era dependente de importações de diesel, combustível essencial para o agronegócio, o transporte de cargas e a geração de energia em regiões remotas. Com o início do conflito e a subsequente pressão ocidental para isolar a Rússia economicamente, muitos compradores tradicionais de combustíveis russos — sobretudo europeus — reduziram ou zeraram suas aquisições. O resultado foi um redirecionamento expressivo do petróleo e do diesel russo para mercados considerados neutros ou simpáticos a Moscou, entre eles o Brasil. Em relativamente pouco tempo, a Rússia passou a responder por cerca de 60% das importações brasileiras de diesel, segundo dados mencionados no projeto aprovado pelo Senado americano. Esse número não é trivial: ele revela uma dependência estrutural que levou anos para se consolidar e que não se desfaz da noite para o dia.

O projeto aprovado prevê tarifas de até 500% sobre importações provenientes diretamente da Rússia — incluindo petróleo e gás — e autoriza o presidente Donald Trump a aplicar tarifas de até 100% sobre produtos de países classificados como grandes compradores de combustíveis russos. Embora o Brasil não seja nominalmente citado no texto, a exposição é evidente. A proposta também amplia sanções contra autoridades russas, oligarcas e instituições financeiras, além de mirar a chamada ‘frota fantasma’ — conjunto de navios utilizados para transportar petróleo russo driblando as restrições internacionais já em vigor. O próprio presidente Vladimir Putin poderia ser alvo direto de sanções caso a lei entre em vigor.

Os atores envolvidos têm posições e incentivos bastante distintos. Do lado americano, legisladores dos dois partidos apoiaram o projeto, o que explica a aprovação por ampla maioria. O senador republicano Jim Risch, presidente da Comissão de Relações Exteriores, afirmou que a medida ‘nos aproxima do fim do conflito’, enquanto a senadora democrata Jeanne Shaheen declarou que o texto ‘atinge com muita força os setores energético e financeiro da Rússia’. O projeto recebeu o nome do senador Lindsey Graham, falecido em 11 de julho, que durante mais de um ano dedicou esforços à sua elaboração. Para Washington, reduzir a receita de petróleo e gás russa é uma forma de limitar a capacidade de Moscou de financiar operações militares — um objetivo que une republicanos e democratas em momento de rara convergência bipartidária.

Do lado russo, a dependência das receitas energéticas é estrutural. O petróleo e o gás respondem por parcela significativa do orçamento federal russo, e qualquer restrição adicional ao acesso a mercados compradores pressiona diretamente a capacidade do Kremlin de sustentar o esforço de guerra. Já países como o Brasil, a Índia e a China — que ampliaram suas compras de combustíveis russos após o início do conflito — encontraram nessa relação uma vantagem econômica imediata: preços mais competitivos em um momento de alta volatilidade nos mercados de energia. O problema é que essa conveniência agora atrai escrutínio geopolítico crescente.

As ramificações para o Brasil são múltiplas. No curto prazo, o projeto ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Representantes americana. Como o Congresso dos EUA está em recesso de verão, a expectativa é que a análise só comece a partir de setembro. Mesmo que o texto avance, ele precisará ser sancionado pelo presidente Trump para virar lei — e o chefe do Executivo americano mantém histórico de posições imprevisíveis em relação a sanções e tarifas, o que adiciona incerteza ao desfecho. Se aprovado integralmente, o país poderia enfrentar tarifas adicionais sobre suas exportações para o mercado americano, afetando setores já sensíveis, como o agronegócio e o setor manufatureiro.

Quem ganha com a aprovação do projeto, além dos defensores da pressão sobre Moscou, são potenciais fornecedores alternativos de diesel e derivados — países do Oriente Médio, África Ocidental e até os próprios Estados Unidos, que têm capacidade exportadora de combustíveis e poderiam preencher parte do espaço deixado pela Rússia caso os compradores atuais sejam pressionados a diversificar suas fontes. Quem perde, no cenário mais adverso, são economias como a brasileira, que teriam de arcar com custos mais altos de importação durante um período de transição — o que se traduziria em pressão inflacionária, especialmente no frete e nos alimentos.

O episódio expõe uma vulnerabilidade que o Brasil acumulou silenciosamente nos últimos anos: a concentração excessiva em um único fornecedor de um insumo estratégico. A discussão agora avança para além do campo energético e entra no terreno das relações diplomáticas e comerciais com Washington. O caminho à frente dependerá tanto do percurso legislativo americano quanto da disposição do governo brasileiro de renegociar sua matriz de importações de combustíveis — um processo que envolve custo, tempo e vontade política. O que o voto do Senado americano deixa claro é que a neutralidade diante do conflito ucraniano tem um preço cada vez mais visível para quem a pratica.