Avaliamos que esta quarta-feira concentra dois vetores de risco que, juntos, traduzem com precisão o ambiente em que o mercado financeiro brasileiro opera neste momento: a incerteza tarifária imposta pela política comercial americana e a instabilidade geopolítica no Oriente Médio. O dólar abriu o dia com volatilidade e marcava alta discreta, cotado a R$ 5,0818 — um movimento que, por si só, não assusta, mas que ganha peso quando lido no contexto dos catalisadores em pauta. A tese central que defendemos aqui é a seguinte: o mercado não está precificando certeza, está precificando risco de cauda — e os dois eventos do dia são exatamente o tipo de choque que pode transformar volatilidade pontual em tendência.

O primeiro argumento para sustentar essa leitura está na decisão sobre as tarifas americanas ao Brasil. Segundo o resumo da reportagem do G1, encerra-se nesta quarta o prazo para que o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) defina se aplica duas sobretaxas distintas sobre produtos brasileiros: uma de 25%, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio americana, que alega práticas brasileiras que onerariam ou restringiriam o comércio com empresas americanas; e outra de 12,5%, aplicada também a mais de 60 países, justificada pela alegação de que essas nações não adotaram medidas suficientes para coibir a circulação de produtos fabricados com trabalho forçado. A combinação potencial das duas taxas criaria uma barreira tarifária expressiva para exportações brasileiras ao maior mercado consumidor do mundo. Historicamente, anúncios dessa natureza — independentemente de sua implementação imediata — geram depreciação cambial e aumento de prêmio de risco nos ativos emergentes. O acumulado do dólar no ano ainda registra queda superior a 7%, o que indica que o mercado, até aqui, não havia incorporado esse cenário como provável. Uma eventual confirmação das tarifas representa, portanto, uma revisão brusca de expectativas.

O segundo argumento vem do Estreito de Ormuz. Conforme a mesma reportagem, EUA e Irã trocaram ataques pelo quinto dia consecutivo nesta quarta-feira, com o Irã voltando a fechar o Estreito e os EUA retomando o bloqueio naval ao país. Observamos que o Estreito de Ormuz é um dos pontos mais críticos da infraestrutura energética global: por ali passa parcela substancial do petróleo comercializado internacionalmente. Qualquer interrupção prolongada do tráfego marítimo nesse corredor eleva estruturalmente o preço do petróleo — e os números desta manhã confirmam esse mecanismo em ação, com o barril do Brent cotado a US$ 85,22 (alta de 0,58%) e o WTI a US$ 79,82 (alta de 0,60%). Petróleo mais caro pressiona inflação global, eleva custos logísticos e tende a fortalecer moedas de países exportadores de energia em detrimento de importadores líquidos como o Brasil — o que representa mais um vetor de pressão sobre o câmbio e sobre as contas externas brasileiras.

Um contra-argumento relevante merece consideração: o dólar acumula queda significativa tanto no mês quanto no ano, e o Ibovespa registra alta expressiva no acumulado de 2025, sinalizando que o fluxo de capital estrangeiro para o Brasil permanece positivo e que o mercado vinha, até aqui, absorvendo choques externos com relativa resiliência. É possível, portanto, que a decisão do USTR resulte em taxas menores do que o teto anunciado, ou que o conflito no Oriente Médio se resolva diplomaticamente antes de gerar disrupção prolongada no fornecimento de petróleo. Esses cenários amenizariam o impacto imediato sobre ativos brasileiros.

Nossa conclusão, contudo, é que o equilíbrio de riscos pende para o lado negativo no curto prazo. Para o investidor, o momento pede cautela com posições em ativos de maior volatilidade e atenção redobrada ao noticiário ao longo da tarde, quando a decisão do USTR deve ser anunciada. Para o empresário exportador, especialmente aqueles com operações voltadas ao mercado americano, o cenário recomenda aceleração do mapeamento de custos e alternativas logísticas. Para o tomador de decisão corporativo de forma mais ampla, a conjuntura reforça a importância de manter hedge cambial ativo em um ambiente onde dois choques simultâneos — tarifário e geopolítico — podem amplificar a volatilidade de forma não linear. O mercado raramente se move em linha reta, mas quando dois vetores de risco convergem no mesmo pregão, a prudência é a postura mais racional disponível.