Como um presidente que escolheu pessoalmente o chefe do banco central mais poderoso do mundo pode ver o próprio indicado caminhar na direção oposta à que deseja? Essa é a tensão que define o momento atual da política monetária dos Estados Unidos — e cujas consequências se estendem muito além das fronteiras americanas.

Na quarta-feira, Donald Trump voltou a manifestar apoio público a Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), mesmo diante do fato de que Warsh não apenas deixou os juros inalterados, como pode estar se inclinando a elevá-los. “Ele é um cara brilhante”, disse Trump a repórteres no Salão Oval, segundo a reportagem. Trump reconheceu, no entanto, que o Fed opera como colegiado e que o conselho de diretores prefere manter os juros em patamar elevado. “Mas nós enfrentamos os juros”, acrescentou o presidente americano.

Para entender por que essa cena é tão reveladora, é preciso recuar alguns anos. Desde meados de 2022, o Fed promoveu um dos ciclos de aperto monetário — ou seja, de elevação de juros — mais intensos das últimas décadas, como resposta à inflação que disparou após a pandemia de Covid-19 e os estímulos fiscais sem precedente que a acompanharam. O ciclo de altas encerrou-se em 2023, e ao longo de 2024 o banco central americano realizou alguns cortes graduais nas taxas. A expectativa de mercado, por muito tempo, era de que 2025 e 2026 seriam anos de normalização progressiva, com juros em queda constante.

Esse cenário, contudo, não se materializou da forma esperada. A inflação nos Estados Unidos mostrou-se mais persistente do que o previsto, recusando-se a recuar ao ritmo desejado, ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho e a atividade econômica continuaram resilientes. Esse conjunto de fatores — crescimento robusto com inflação acima da meta — coloca o Fed diante de um dilema clássico: afrouxar os juros pode alimentar ainda mais a inflação; mantê-los altos ou elevá-los pode desacelerar a economia.

É nesse contexto que Warsh assumiu o comando do Fed em maio, substituindo Jerome Powell. Powell havia se tornado alvo recorrente das críticas de Trump, que exigia cortes de juros agressivos e chegou a cogitar publicamente sua demissão, num movimento que gerou enorme tensão institucional — já que a independência do banco central é considerada um pilar fundamental da credibilidade da política econômica americana. A escolha de Warsh foi lida inicialmente por muitos observadores como uma tentativa de Trump de colocar um aliado mais receptivo às suas preferências na cadeira mais importante do Fed.

O que se vê agora, porém, é uma dinâmica mais complexa. Nas duas reuniões de política monetária realizadas sob o comando de Warsh, o Fed manteve os juros estáveis na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Mais do que isso: na reunião mais recente, três integrantes do conselho votaram a favor de uma elevação dos juros — sinal de que a pressão interna no colegiado aponta para o aperto, não para o afrouxamento. O próprio Warsh, em coletiva de imprensa após a decisão, descreveu sua lógica de forma direta: quando a inflação subjacente — aquela que exclui itens voláteis como alimentos e energia, e é considerada o termômetro mais confiável da tendência de preços — avança enquanto o mercado de trabalho está em equilíbrio, a resposta natural de um banqueiro central é apertar a política monetária. Quando a inflação recua, o movimento é o oposto. “Essa é a minha função de reação”, disse Warsh, conforme a reportagem.

Os mercados de contratos futuros de juros, instrumentos financeiros que refletem as apostas dos investidores sobre as próximas decisões do Fed, passaram a precificar uma probabilidade superior a 60% de alta de 0,25 ponto percentual em breve — o que representa uma reversão significativa das expectativas que prevaleciam há alguns meses.

Nesse tabuleiro, os incentivos de cada ator são bastante distintos. Trump quer juros mais baixos porque o crédito mais barato estimula a economia, facilita o refinanciamento da enorme dívida pública americana e tende a impulsionar os mercados financeiros — todos objetivos politicamente convenientes. Warsh, por sua vez, herdou uma instituição cuja credibilidade depende precisamente de não ceder a pressões políticas. Agir de forma inconsistente com os dados econômicos apenas para agradar ao Executivo destruiria a confiança dos mercados no Fed — e essa confiança é o principal ativo que mantém as taxas de juros de longo prazo dos títulos americanos em níveis administráveis.

Quem ganha e quem perde nesse cenário depende do desfecho. Se o Fed elevar os juros, empresas endividadas, o mercado imobiliário e economias emergentes que captam recursos em dólar tendem a sofrer pressão adicional. O Brasil, por exemplo, como outros países em desenvolvimento, sente os efeitos de juros americanos elevados na forma de saída de capitais e pressão cambial. Por outro lado, uma alta de juros bem comunicada e ancorada em dados pode reforçar a credibilidade do Fed e evitar uma espiral inflacionária mais severa no futuro. Quem perde mais imediatamente é o próprio Trump, cujo projeto político aposta em crescimento econômico acelerado — algo que juros mais altos tendem a dificultar.

O paradoxo central dessa história é que Trump pode ter escolhido Warsh exatamente por considerá-lo aliado, mas o cargo de presidente do Fed tem uma lógica própria que frequentemente supera lealdades pessoais. A independência da autoridade monetária não é apenas um princípio abstrato: é a condição para que os mercados acreditem que as decisões sobre juros seguem a inflação e o emprego, e não o ciclo eleitoral. O desfecho do embate entre as preferências do presidente americano e a dinâmica dos dados econômicos definirá não só o rumo dos juros nos Estados Unidos, mas também o tom dos mercados globais nos próximos meses.